Dom Casmurro: Uma breve análise sobre o patriarcalismo e luta de classes.

O romance Dom Casmurro é narrado em primeira pessoa, pelo próprio Dom Casmurro que é também a personagem protagonista da narrativa. Os aspectos estudados na obra Dom Casmurro são reveladores do fato de que uma obra não se restringe à história que está registrada no papel, ela sempre leva consigo uma série de significados que não está necessariamente explícita, as quais o leitor constrói através da leitura. Importante salientar que a obra machadiana pressupõe um leitor inteligente, sendo uma espécie de detetive, não cabe um leitor passivo.
Podemos dizer que o objetivo principal do autor é o comportamento humano. Esse horizonte é atingido mediante a percepção de palavras, pensamento e obras de pessoas que viveram no Rio de Janeiro, do século XIX. No entanto, as personagens machadianas possuem uma universalidade, que o faz serem compreendidas em outras línguas e culturas.
Dom Casmurro a princípio parece ser um narrador acima de qualquer suspeita: um filho submisso à mãe, um católico criado no meio de padres, um proprietário abastado avesso à negócios, um amigo atencioso e marido exemplar. No entanto, o protagonista demonstra ter uma personalidade bisonha, maleável e bem fantasiosa. Segundo Hellen Candwell, as acusações de Bentinho à Capitu podem ser infundadas e muito possivelmente ditadas pelos ciúmes.
O diferencial da personalidade de Capitu está em sua naturalidade, na maneira como se move no ambiente que superou, cujos mecanismos a mesma demonstra discernimento. Quando conhecemos Capitu temos a impressão de que o intelecto da garota a fará superar a injustiça de classe e o patriarcalismo.
Diferente de José Dias que compensa sua situação de agregado com erudições de colegial e fofocas, e prima Justina uma pessoa pobre, que equilibra sua autoestima baixa, falando mal dos outros e assim se consolando de um destino mesquinho, Capitu tenta superar sua condição de classe subalterna com inteligência e sagacidade, guiando o molóide Bentinho a fim de driblar a vontade de sua mãe, o desejo da proprietária.
Ao enviuvar, dona Glória vende a fazenda e compra algumas casas, apólices e escravos, que aluga ou põe no ganho. Apesar de ser devota e voltada aos serviços domésticos, sua autoridade decorre da propriedade. Embora aceite um subterfúgio esfarrapado para voltar atrás na promessa, percebemos que Bentinho tem medo de dizer a verdade a ela, ou seja, que não queria ser padre. Podemos entender, que um certo autoritarismo e capricho afeta a santidade das mães das famílias burguesas brasileiras, do século XIX.
O Brasil de Machado de Assis, possuía duas condições dissonantes: o escravismo e a ideologia liberal. O pressuposto do liberalismo era o trabalho livre, no entanto, esse mesmo pensamento convivia com a escravidão no Brasil. O caráter funcional do liberalismo se deu com uma burguesia agroexportadora que havia rompido com a metrópole graças a abertura dos portos em 1808. Essa mesma burguesia garantira para sua classe as liberdades de mercado e de se representar na cena política. A ideologia liberal funcionava muito bem para os herdeiros das oligarquias do século XIX. O liberalismo que premia o mérito consistia em um autoelogio da classe burguesa. A ideologia da aberta competição e do self made man era realmente uma ideia muito estranha em um país escravocrata.
Depois de sair do seminário, estudar direito e casar-se, Bento se torna proprietário. Em um primeiro momento, a narrativa de Dom Casmurro é uma crônica de saudades, cheia de afagos, inocência e apegos a infância. Posteriormente, aparece um diagnóstico severo do mundo patriarcalista. Agora a autoridade não é mais a mãe, mas ele mesmo. A instância dramática concentra-se nos ciúmes que já havia sido um entre os vários destemperos imaginativos do menino, e agora, associado à autoridade do proprietário/ marido, se torna uma força de devastação.
Capitu passa a não enfrentar o marido, diante dos sentimentos do marido a moça se fecha em casa, não saindo nem a janela para não contrariar Bento. Posteriormente é exilada pelo marido e acaba falecendo, no entanto Casmurro continua mantendo aparências, visitando a Europa e dizendo aos amigos que visitava a esposa.
No final vemos um Bento patético que se vale da companhia de moças pobres e prostituídas que vão embora de sua casa a pé. Quando o filho o visita ele deseja-lhe a morte por lepra; o rapaz morre em seguida de tifo. Casmurro não sente nada.
Dessa forma, ao analisarmos a construção da personagem Dom Casmurro percebemos que Machado de Assis não vê com nenhum otimismo a sociedade brasileira do século XIX. Bento Santiago é o retrato de uma elite retrógrada, supersticiosa, preconceituosa e patriarcal.

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