Resenha: A Tolice da Inteligência Brasileira ou Como o país se deixa manipular pela elite.

Autor: Jessé Souza (professor titular de Ciência Política da UFF)

“O domínio permanente de classes sobre outras exige que as classes dominadas se vejam como inferiores, preguiçosas, menos capazes, menos inteligentes, menos éticas….Se o dominado socialmente não se convence de sua inferioridade, não existe dominação social possível.” Jessé Souza

A riqueza do especulador de Wall Street é vista como mérito.

Como disse Max Weber, os ricos e felizes, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem ser apenas ricos e felizes, querem também ter o “direito” à riqueza e felicidade.
Nas sociedades do passado o privilégio era aberto e possuía motivação religiosa: alguns tinham sangue azul por decisão divina, o que os legitimava a terem acesso a todos os bens e recursos escassos. Nossa sociedade diz que superou os privilégios injustos, portanto os mesmos não podem aparecer como privilégio, mas sim como, por exemplo, mérito pessoal de indivíduos mais capazes, sendo, portanto justificável e merecido.
Toda a reprodução de privilégios injustos depende do convencimento e não da violência. Por conta disso, segundo Jesse Souza, os privilegiados são os donos dos jornais, editoras, das universidades, das TVs e do que se decide nos partidos políticos. Apenas dominando todas essas estruturas é que se pode monopolizar o trabalho da imensa maioria de não privilegiados sob a forma de taxa de lucro, juro, renda da terra ou aluguel.
A tese central deste livro é que tamanha violência simbólica só é possível pelo sequestro da inteligência brasileira para o serviço da elite. O que possibilita a justificação do problema grotesco da concentração de renda em pouquíssimas mãos. A maior parte do livro, inclusive, se dedica a compreender a sociedade, levando em conta as desvantagens do ponto de partida das classes populares, como se aprende, na prática a ser um trabalhador.
E isso leva a uma falsa ideia de oposição entre o Estado (corrupto) e o mercado (reino da virtude e da eficiência). E em um contexto no qual não existe fortuna de brasileiro que não tenha sido construída à sombra de financiamentos e privilégios estatais nem corrupção estatal sistemática sem conivência e estímulo do mercado.
A proteção às classes dominantes é historicamente fornecida pelo Estado, é vontade dos ricos que todas as dimensões da vida social fiquem à mercê do interesse do lucro. Segundo Jessé Souza a classe média que foi as ruas em 2013, agiu como tropa de choque dos interesses dos endinheirados, quando denunciou a corrupção do Estado, sendo que a demanda anterior era por melhoria do transporte público, escolas e saúde demandas típicas das classes populares.
O que nos afasta das sociedades melhores não é só a corrupção estatal, mas o fato de tornarmos natural e cotidiano conviver com gente sem qualquer chance real de vida digna sem ter nenhuma culpa disso.
Para o referido autor o criminoso condenado socialmente é o funcionário de Estado que cobra propina e o batedor de carteiras, mas o especulador que frauda balanços de empresas e países não é reconhecido como bandido, aparecendo muitas das vezes na capa do Financial Times. E a riqueza do especulador de Wall Street é visto como fruto de mérito.

SOUZA, Jessé. A Tolice da Inteligência Brasileira ou Como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: Leya. 2015.

 

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