Resenha livro: Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue: A Rebelião dos Escravos de Demerara em 1825. Emilia Viotti da Costa

“Crises são momentos de verdade. Elas trazem à luz os conflitos que na sua vida diária permanecem ocultos sob as regras e rotinas do protocolo social, por trás de gestos que as pessoas fazem automaticamente, sem pensar em seus significados e realidades. Nesses momentos expõem-se as contradições existentes por trás da retórica de hegemonia, consenso e harmonia social.”

A historiadora Emília Viotti da Costa é livre docente pela Universidade de São Paulo, foi aposentada pelo AI-5 em 1969 e atualmente leciona na Universidade de Yale nos Estados Unidos.

A autora utilizou variada abundância de fontes e contou a história através de diversos pontos de vista, também utilizou a macro e a micro-história, pois é impossível compreender uma sem a outra. Lembrando que as ações humanas é o ponto em que se resolve a tensão entre liberdade de ação e necessidade.

As colônias de Demerara-Essequibo e Berbice pertenciam ao Império Britânico no início do século XIX e eram grandes produtoras de açúcar. Em 1823, Demerara foi cenário de uma das maiores revoltas de escravos na história colonial americana. Entre 10 e 12 mil escravizados se sublevaram em nome da liberdade. Os rebeldes foram rapidamente reprimidos, sendo mais de duzentos mortos de uma só vez. Alguns foram levados a julgamento e outros tantos morreram na forca.

John Smith, um pastor evangélico que partiu em 1817 da Grã-Bretanha para Demerara, para pregar aos escravos, foi acusado de ser o instigador da rebelião. O mesmo foi julgado por uma corte marcial e condenado à morte.

Os negros escravizados foram arrancados de sociedades organizadas em função do parentesco ou do tributo, com regras e normas próprias, a partir de sua nova realidade foram forçados a redefinir suas identidades no regime da escravidão. A partir de experiências trazidas do passado, modificados pelas novas condições e pelo novo ambiente, os mesmos redefiniram suas personalidades, utilizando para isso a fé protestante.

A partir do convívio com senhores de escravos e missionários, os escravizados começaram a se apropriarem dos símbolos cristãos cujo propósito original seria sujeitá-los, e converteram-nos em instrumentos de resistência. Os colonos encontravam-se em um dilema. Para “amansar” os cativos, queriam usar os missionários. No entanto, os pastores passaram a ensinar os escravos a ler e a escrever, insistiam no respeito ao dia de descanso e pregavam contra o adultério. Assim, os evangelistas passaram a ser considerados inimigos e tudo foi feito para impedi-los de agir.

Os pastores chegavam em Demerara e viam uma situação muito complicada. Uma sociedade dividida entre senhores e cativos. Entendiam que iam pregar para bárbaros, mas quando chegavam na colônia, viam que a barbárie era praticada pelos ingleses e não pelos escravizados, e esses eram vítimas de um sistema brutal.

Os pastores acreditavam que eram instrumentos da divina providência e encontravam uma sociedade cheia de sinais e símbolos que eles desconheciam, pois na Europa o trabalho era assalariado (uma coisa era pregar para camponeses e operários europeus, outra era para cativos em Demerara). Como era de se esperar violaram muitas regras e provocaram o ressentimento e a irritação da elite local, tendo graves consequências.

Muitas das vezes nos condicionamos a ver a história e até mesmo o presente como algo estático, usando abstrações como capitalismo, liberalismo, evangelização, etc. Esquecemos que a realidade é feita por homens e mulheres, embora a façamos sob condições que não escolhemos. O que mais nos interessa é como as pessoas interagem, como pensam e agem sobre o mundo, ao transforma-lo, mudam a si mesmas.

A rebelião de escravos de 1823, e o destino terrível do pastor Smith tem um valor universal. Por isso, vale muito a pena conhecer a história deles pelo admirável trabalho de Emília Viotti da Costa.

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