Resenha Livro: A Guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Aleksiévitch

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Лидия Владимировна Литвяк -Lidiya Vladimirovna Litvyak - 
Pilota de caça soviético. Propaganda soviética.

As guerras usualmente são contadas do ponto de vista da “História Oficial”, com heróis, estratégias militares, generais, etc., esquecemos daqueles que estavam nas linhas de frente, que são tão importantes quanto.

Svetlana, jornalista ucraniana ganhadora do prêmio Nobel de Literatura, conta a Segunda Guerra Mundial a partir do olhar das mulheres soviéticas, que lutaram. A autora deu voz à várias personagens reais, com diferentes funções: francoatiradoras, enfermeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, artilheiras, comandantes, tanquistas, sapatoras, etc. Do interior da União Soviética saíam muitos trens, com vagões lotados de moças, indo para o front.

As mulheres matavam e eram mortas. Cada uma viu a guerra a sua maneira, guardando lembranças traumáticas. São muitas narrativas, vou me ater somente em algumas.

Um francoatirador nazista foi capturado pelos soviéticos e pediu para conhecer o francoatirador, que havia matado vários francoatiradores que ele havia treinado, além de vários militares de alta patente. O soviético respondeu: “não posso apresentar-lhe, pois ela está morta. Era uma francoatiradora.” O alemão falou: “nossa são mulheres mesmo! A propaganda dizia, que as soviéticas do exército eram hermafroditas.”

Uma soldada que estava em uma batalha próxima a cidade de Stalingrado lembra de que sabia quando os nazistas iam atacar. Trinta minutos antes do bombardeio, os ratos saíam em filas e desapareciam da cidade. Outra militar narra que não podia deixar nada exposto, pois os ratos roíam em questão de minutos, assim como as pessoas, os animais também estavam famintos.

Uma guerrilheira partzan narrou que estavam em uma batalha há três dias sem comer. Quando ela viu passar um potrinho, pensou alguns instantes, a fome falou mais alto e ela abateu o cavalinho; com ele fez uma sopa e alimentou a todos. Ela não parava de chorar, até que a comandante lhe disse: “Depois da guerra você se comove, agora não”. Elas não tinham o direito de sentir, apenas de matar.

Vários foram os relatos de que não havia uniformes nos tamanhos adequados para as mulheres. Elas vestiam roupas gigantes, botas tamanho 42, sendo que muitas calçavam 36, além de cuecas. Isso causava uma tristeza enorme, porque apesar da guerra, elas queriam se sentir mulheres. Também outro ponto muito traumatizante era o cabelo, pois tinham que obrigatoriamente cortar um corte masculino, ficavam apenas com um topete. As meninas choravam copiosamente, ao ver as tranças no chão.

A fome era galopante. Uma militar relatou que em Leningrado uma mãe tinha cinco filhos, que não paravam de chorar famintos. A menina mais nova estava doente, ela desapareceu. Seus filhos pararam de se lamentar e a mãe se suicidou. Fica subentendido o que aconteceu.

Os nazistas eram particularmente mais cruéis, quando faziam prisioneiras de guerra. Portanto, as mulheres na linha de frente recebiam balas a mais, pois se fossem capturadas deveriam se suicidar. Faça de tudo para não cair nas mãos dos alemães, isso servia para todos, principalmente para as mulheres.

Boa parte das jovens eram voluntárias, imploravam para o comando o direito de vingar sua família. Alguns homens ficavam com pena e queriam restringir a participação das mesmas às funções de telefonistas, tradutoras, ou seja, incumbências consideradas femininas. Algumas respondiam, eu quero ir para a linha de frente, “telefone não atira”.

Muitas militares no pós-guerra eram preteridas nos relacionamentos, pois eram consideradas feias e masculinizadas. Era comum elas terem ferimentos, cabelos brancos com dezenove anos e até mutilações. Essa questão é realmente perversa.

Uma jovem disse a Svetlana: “Meu bem….Não pode existir um coração para odiar e outro para amar. O ser humano só tem um, e eu sempre pensava em como salvar meu coração”.

Людмила Михайловна Павличенко - Liudmyla Mykhailivna Pavlychenko 
Atiradora de elite soviética. Propaganda soviética.

 

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