Resenha Livro: Como conversar com um fascista – Marcia Tiburi

Vocês já conseguiram conversar com um fascista?

Honestamente, eu nunca consegui. Uma vez tentei argumentar com um antissemita. Ele acreditava que os judeus e os maçons iam dominar o mundo. Argumentei que isso era uma ideia mentirosa, propagada por um documento forjado pelo czar Nicolau II, que estava perdendo poder político e tentou criar um inimigo, a fim de desviar a atenção do povo. Essa pessoa começou a esbravejar, falando dos Rotchilds, do Karl Marx do Freud. Todos juntos para dominar o mundo! Só eu mesma uma pessoa tão ingênua para não perceber o perigo que o planeta está correndo! (ironia)

Primeiramente, vamos ver o que é um fascista. Segundo Marcia Tiburi, é um sujeito psico político bastante comum, sua característica principal é que ele não é aberto ao outro, sendo politicamente pobre.

O seu empobrecimento se deu pela perda da dimensão do diálogo, ele não consegue relacionar-se com outros – com características e pensamentos diversos – que ultrapassem suas verdades absolutas.

O fascismo atualmente vai além do fenômeno italiano, que pode ser fabricado a qualquer momento com a ajuda dos meios de comunicação de massa. A palavra “fascismo” se origina de fascio (latim fascis), símbolo da autoridade dos antigos magistrados romanos, que utilizavam feixes de varas com o objetivo de abrir espaços para passarem, era um símbolo de poder autoritário.

No regime fascista há uma tentativa de edificação de um Estado total, ou seja, um governo que se sobreponha ao indivíduo. Para que isso aconteça a intolerância torna-se uma constante. Nega-se, portanto, a alteridade e acentua-se a criação e a preocupação com os “inimigos”.

Um dos recursos é justamente a criação de “inimigos” imaginários, utilizando como recurso acusação e julgamento. Se transformando em um juiz, um inquisidor moderno o fascista se coloca em uma posição de superioridade em relação ao outro.

Essas pessoas tem medo da liberdade, por isso eles tem muito medo da democracia. O fascista não sabe como exercê-la, razão pela qual eles tentam abrir mão dela. Apresentam uma personalidade sádico – masoquista (no sentido comportamental), autoritário e submisso ao mesmo tempo. Isso reverbera no plano político, em que os mesmos tentam aniquilar os direitos daqueles considerados párias e ao mesmo tempo se submetem ao poder de um Estado autoritário.

Para destruir o outro, é preciso acabar com a política e com a democracia. Acabar com o outro, garante o fim de Estado de direitos. Como se consegue isso? É preciso humilhar pessoas, rebaixá-las.

Se olharmos as redes sociais e os comentários em matérias de jornais online vemos que o ódio está mais forte do que tudo. Ele não é só inconsciente, ninguém mais tem vergonha dele e o expõe a quem quiser ler ou ouvir.

O modo de ser fascista hoje no Brasil é expresso por meio de linchamentos públicos (físico e verbal), homofobia, machismo e racismo. O interessante é que essas pessoas não demonstram nenhuma dúvida em relação aos seus pensamentos. O mundo está pronto! É preto e branco, ponto final. Entendeu? (ironia)

Márcia Tiburi também aborda a cultura do estupro. Esse ato de violência é dirigida a todos os que são considerados mulheres, seja porque são, porque se autodenominam, ou ainda aos que tenham características consideradas femininas: homossexuais, travestis, crianças e animais (pets principalmente).

Isso dito, como vamos conversar com o fascista? Para Marcia Tiburi o fascista precisa ser confrontado com aquilo que ele mais teme: O outro.

Mostrar a alteridade, através do diálogo. A autora utiliza como exemplo, os protestos no Facebook a favor da causa dos guaranis-kaiowás, em que pessoas alteraram seus sobrenomes, acrescentando a palavra guarani-kaiowás. Isso demonstrou uma abertura entre as pessoas para enxergarem o outro, o diferente. Através, de exemplos como esse podemos talvez abrir a porta para um diálogo.

Particularmente sou bem pessimista quanto a essa possibilidade. Acredito que uma pessoa fechada em seu pensamento, muito dificilmente irá conseguir compreender a dimensão do externo. Como o sujeito antissemita do exemplo que eu dei, por mais que eu argumentasse que aqueles pensamentos eram irreais e oferecesse várias informações que comprovam isso, ele não parou para pensar em nenhum momento.

O livro vale muito a pena, devido a reflexão que a autora oferece sobre a política e sociedade brasileira atual. Quem sabe poderemos avançar um pouco no diálogo com fascistas…..

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2 comentários sobre “Resenha Livro: Como conversar com um fascista – Marcia Tiburi

  1. Francamente, vejo militantes de esquerda com postura bem unilateral exatamente como a descrita por você e pela professora. Será que “conversar com seu fascista” não será uma tarefa tão inglória quanto “conversar com seu militante de esquerda”? De fato, acho que a ênfase no ideológico nos deixou sem uma base lógica comum para o diálogo. Tudo virou narrativa.

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    • Oi Claudio,

      Sim, dependendo do militante de esquerda não dá realmente para conversar. Eu acho que a Marcia Tiburi escreveu esse livro, para lembrar que todos devem estar disponíveis para o diálogo, senão correremos o risco de nos tornarmos autoritários também.

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