Resenha Quadrinhos: Persépolis – Marjane Satrapi

Em tempos sombrios como o que estamos vivendo, falar sobre ditaduras e perda de liberdade se torna extremamente pertinente. Alguém pode questionar, mas o que eu vou aprender lendo um quadrinho autobiográfico, que fala a respeito de uma Revolução Islâmica? Olhando o Outro aprendemos sobre nós mesmos.

Eu nunca achei que fosse ver manifestações pedindo a volta da Ditadura Civil-Militar no Brasil. Período complicado. Portanto, as reflexões propostas pela referida obra, mais do que nunca são pertinentes. Marjane Satrapi trata basicamente do preço da liberdade.

Persépolis é um quadrinho autobiográfico escrito e ilustrado por Marjane Satrapi. Os gregos se referiam a Pérsia como Persis, Pars ou Parça era o nome do clã principal de Ciro, que deu o nome a região.

Em 642, os árabes dominaram a Pérsia com uma só batalha. Derrotados, os persas adotaram o islamismo xiita. Na atualidade com a descoberta das reservas petrolíferas as potências ocidentais começaram a interferir cada vez mais no país.

Em 1953, a CIA organizou um golpe de Estado contra Mossadeq, o chefe de governo, que contestava a divisão dos lucros da venda do petróleo feita pela Anglo-Iranian Oil Company. Os americanos submeteram o Irã a um embargo econômico, proibindo que o petróleo fosse exportado. Então Mossadeq foi derrubado e Mohammad Rezah assumiu o poder até 1979, quando foi derrubado.

A partir da Revolução Islâmica aiatolá Ruhollah Khomeini assumiu o poder. E uma profunda mudança se deu no país.

Na época do Xá Rezah o Irã era um país bem ocidentalizado. As pessoas tinham liberdade de escolhas. Para termos uma ideia as crianças assistiam a filmes e desenhos da Disney. Os homens usavam camisetas de bandas e o véu não era obrigatório.

Marjane estudava em uma escola laica de tradição francesa. Meninos e meninas ficavam juntos em sala de aula e interagiam tranquilamente. Com a Revolução Islâmica tudo mudou. As meninas foram obrigadas a usar o véu. Meninos e meninas foram separados. Os professores passaram a ensinar religião.

As pessoas não tinham muita consciência do que estava acontecendo, tanto é que os parentes comunistas da protagonista acreditavam, que a Revolução iria começar como islâmica e poderia acabar comunista. Ledo engano.

A repressão começou a tomar conta do país. Os opositores do novo regime eram mortos sumariamente. Uma jovem comunista foi dada em casamento, pois de acordo com as leis islâmicas é proibido matar uma virgem, para ser posteriormente fuzilada. Esse fato marcou Marjane profundamente.

Em 1980, estourou a guerra Irã e Iraque, que foi teoricamente motivada pelo controle do Chatt-el-Arab, um canal que liga o Iraque ao Golfo Pérsico.

Saddam Husseim, na época aliado aos Estados Unidos, reivindicou o controle do canal. Diante da recusa iraniana em ceder o território, tropas iraquianas invadiram o Irã e destruíram a maior refinaria de petróleo do mundo. Dois países pobres e extremamente dependentes da exportação petrolífera mantiveram um conflito sem sentido, que custou a vida de milhares de pessoas.

A protagonista cita que os alemães vendiam bombas químicas ao Irã e ao Iraque, depois os feridos eram enviados a Alemanha, para serem tratados. Eram na verdade cobaias humanas.

Os mísseis iraquianos começaram a atingir Teerã. Até então, a guerra estava longe de Marjane. Um míssil caiu na rua da casa da jovem e acertou a casa dos judeus Baba-Levi, matando sua amiga.

Marjane tinha recebido uma educação bem libertária, temendo por sua integridade, devido ao recrudescimento da revolução islâmica e a guerra, seus pais decidiram enviá-la para a Áustria. Ela tinha apenas 14 anos.

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Nós podemos imaginar o que era para uma jovem, que até então tinha vivido com os pais, passar a viver em um colégio de freiras, solitária e mal sabendo falar alemão. Marjane sofreu bastante, era muita angústia e tristeza.

Posteriormente, vamos tomando conhecimento de como foi a sua adaptação no Ocidente e como a personalidade da protagonista foi se desenvolvendo, ela era uma moça extremamente crítica. Não aguentando mais a sua situação na Áustria, marcada por uma série de percalços, Marjane decide voltar ao Irã.

De novo a adaptação não foi fácil, primeiro pelo sentimento de culpa que a personagem sentia por ter fugido da guerra. No país ela tomou contato com os mutilados da guerra. Uma parte bem chocante da obra é quando ela vai visitar um amigo de infância, que está em uma cadeira de rodas e sem o braço esquerdo.

A Revolução Islâmica tinha se estabelecido e situações bem bizarras aconteciam. Como, por exemplo, tinham os guardiães da Revolução. Eram homens e mulheres que andavam pelas ruas, inspecionando se as mulheres estavam muito maquiadas, se o véu cobria todo o cabelo, se os homens tinham barbas…..Em um momento, Marjane estava correndo e foi advertida para parar, pois conforme corria balançava suas nádegas. Pois é.

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Marjane, criança sendo questionada pelas guardiãs da Revolução, por estar com uma roupa considerada ocidental.

Marjane escreveu Persépolis em francês, para contar sua vida aos europeus e americanos. Atualmente, a protagonista vive na França e ganhou vários prêmios com a referida obra.

Um livro que vale muito a pena, pois nos traz uma reflexão importantíssima a respeito da importância da liberdade.

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