Resenha Filme: Maus Hábitos (Entre Tinieblas) – Pedro Almodóvar

Em Maus Hábitos entramos em contato com um convento de freiras “As Redentoras Humilhadas”, que são especialistas em “salvar” mulheres da prostituição, do crime e das drogas.

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Madre Superiora e Yolanda usando drogas. Imagem de divulgação.

Como em nenhum filme do Almodóvar a narrativa é convencional, esse convento está longe de ser clichê. A Madre Superiora é lésbica e traficante de drogas, as freiras usam entorpecentes e criam um tigre, andando com ele na coleira, batem tambor enquanto o alimentam com carne crua. Outra freira escreve livros de romances com pseudônimo (seria o equivalente a obras como Julia e Sabrina, livros de banca de revista).

As monjas trocam de nomes ao entrar para ordem, então vemos a Irmã Rata, a Esterco, a Víbora, etc. Elas acreditam que precisam ser humilhadas para pegar seus pecados, por isso esses nomes. Elas também se penitenciam, uma delas chega a quebrar uma garrafa para pisar em cima dos cacos.

O que a Santa Teresa de Jesus (Santa espanhola, considerada mística) conseguia alcançar com sua fé e uma pitada de misticismo, as personagens alcançam com LSD e heroína.

Uma cantora chamada Yolanda presencia a morte do seu namorado, que teve overdose. Com medo da Polícia ela procura refúgio no referido convento. Assim, a Madre Superiora decide acolhe-la e acaba se apaixonando pela mulher.

Em uma cena as freiras comemoram a chegada de Yolanda, pois elas estão quase sem ninguém, porque poucas desejam se salvar. Assim, elas dizem: “Logo aqui estará cheio de assassinadas, drogadas e prostitutas!” Elas se sentem felizes com essa possibilidade.

Almodóvar sempre trata da complexidade e ambiguidade humana em seus filmes. As referidas freiras resolveram direcionar sua Pulsão de Morte (desejo de destruição) para o cuidado com as mulheres marginalizadas. Ao mesmo tempo elas tentam preservar a vida dessas pessoas. As monjas são personagens, que tem fixação pelo grotesco e pelo feio. Em um dos diálogos a Madre Superiora afirma que acha lindo a degradação humana e as olheiras (representação de doenças). Ela adorava ficar doente para ter as manchas embaixo dos olhos.

O tigre possivelmente representa a animalidade das freiras (ID no conceito freudiano). O animal é uma fera presa dentro de um ambiente, que não foi feito para ele. Tratado igual a um cachorrinho, simboliza que as freiras queriam domesticar seus impulsos.

As cenas que mostram Yolanda fora do convento tem um tom avermelhado, contrastando completamente com o tom pastel do convento. Em um momento Almodóvar mostra a Madre Superiora e a cantora de dentro de duas janelas, representando que elas estão fechadas dentro da sua próprias mentes.

Em certo sentido, o cineasta também acerta as contas com o período franquista e o apoio do alto clero à ditadura, que tolhia tudo quanto era tipo de liberdade individual (como, por exemplo, proibia o uso de biquínis em praias).

Almodóvar busca a essência humana em seus filmes, o mundo para ele é um lugar artificial, em que nada é o que parece.

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