Resenha livro: Pauliceia Desvairada – Mário de Andrade

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São Paulo década de 20.

Alguns seguidores do blog já tinham me pedido para aumentar o número de resenhas de livros de autores brasileiros. Eu também acho extremamente necessário falarmos sobre os autores nacionais, aos poucos eu irei acrescentando no blog.

A Pauliceia Desvairada é considerada um marco na literatura nacional considerada obra prima da Vanguarda brasileira.

Mário de Andrade foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta brasileiro. Além de Pauliceia Desvairada publicou importantes obras como Macunaíma 1928 e Amar Verbo Intransitivo em 1927.

O autor tinha estreita amizade com um grupo de jovens artistas e escritores de São Paulo, que estavam interessados no Futurismo. Eles integravam o chamado Grupo dos cinco: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.

A exposição da Anita Malfatti, antes da Semana da Arte Moderna, foi duramente criticada por Monteiro Lobato em um texto chamado “Paranoia e Mistificação”. A artista trazia a novidade de elementos plásticos pós impressionistas (cubistas e expressionistas).

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Anita Malfatti. A estudante russa, 1917.

As vésperas da Semana de 22 (Semana da Arte Moderna) alguns escritores brasileiros traziam da Europa notícias de uma literatura em crise. Oswald de Andrade conheceu em Paris o futurismo de Marinetti, em 1909, e trouxera de lá a poesia em versos livres.

A referida semana representou uma verdadeira renovação na linguagem, com uma liberdade criadora da ruptura com o passado, que passou da Vanguarda para o Modernismo. O evento marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia declamada, que antes era só escrita.

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A estética não agradou ao público. As pinturas e esculturas de formas estranhas e os versos livres eram declamados entre vaias e gritos da plateia.

No último dia Heitor Villa-Lobos entrou para a apresentação calçando sapato em um pé e chinelo no outro, o que foi considerado extrema falta de respeito, assim foi vaiado furiosamente. No entanto, ele estava com o pé machucado.

Em 1922, Mário de Andrade lança a obra Pauliceia Desvairada. Nessa obra podemos perceber algumas inovações, como a utilização de uma linguagem coloquial, característica das obras modernistas do período.

Como no caso do inconsciente proposto por Freud, o eu lírico na obra deslizada metamorfoseando-se pela Pauliceia Desvairada.

O eu lírico arlequinal e a cidade são a face da mesma moeda. A dualidade de temperamento faz parte de um todo.

O arlequim pressupõe um temperamento alegre, impulsivo, como a instância freudiana ID com seus instintos indomáveis, enquanto a indústria, o trânsito, a ordem e os jardins, fazem parte do Superego. (Para mais detalhes sobre os conceitos freudianos ver o post Mal-Estar na civilização do Freud).

Mário de Andrade, conhecedor dos conceitos propostos por Freud, captou muito bem as várias faces da cidade de São Paulo, bem como a oposição civilização versus barbárie.

 O trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…

Sou um tupi tangendo um alaúde!

O eu lírico é um índio tangendo um alaúde, ou seja, ele é ao mesmo tempo “primitivo” e “civilizado”. A modernidade compreendida como civilização trazia em seu cerne a barbárie.

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Crianças trabalhando em uma fábrica de sapatos em São Paulo. 1927. Museu da Imigração.

As antigas famílias bandeirantes estavam vivendo em uma São Paulo com milhares de imigrantes italianos, alemães, sírios, espanhóis e judeus chegados em fins do século XIX.

A prática do estímulo à imigração maciça era um mecanismo de estabilização de tensões, achatamento dos salários e branqueamento da população dominada desde muito cedo pelos dirigentes e cafeicultores paulistas.

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Navio de imigrantes italianos. Museu da Imigração.

A cidade mudara de fisionomia, passando a ser um núcleo industrial com um operariado numeroso e com uma classe média em desenvolvimento. Tudo estava mudando, os costumes, a paisagem e sobretudo a linguagem.

Paisagem Número 02

Lá para as bandas do Ipiranga
As oficinas tossem
Todos os estiolados são muito brancos
Os inversos de Pauliceia são como enterros de virgem.
Italianinha, torna al tuo paese!

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Imigrantes italianos em São Paulo. Museu da Imigração.

Anhangabaú

Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora…
Oh larguezas dos meus itinerários!…
Estátuas de bronze nu correndo eternamente,
num parado desdém pelas velocidades…

O carvalho votivo escondido nos orgulhos
do bicho de mármore parido no Salon…
Prurido de estesias perfumando em rosais
o esqueleto trêmulo do morcego…
Nada de poesia, nada de alegrias!…

E o contraste boçal do lavrador
que sem amor afia a foice…

Estes meus parques do Anhangabaú ou de Paris,
onde as tuas águas, onde as mágoas dos teus sapos?
“Meu pai foi rei!
Foi. Não foi. Foi. Não foi.”
Onde as tuas bananeiras?
Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros,
contando histórias aos sacis?…

Meu querido palimpsesto sem valor!
Crônica em mau latim
cobrindo uma écloga que não seja de Virgílio!…

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Anhangabaú década de 20.

A construção de parques fazia parte do projeto civilizatório da cidade. Eles eram construídos baseados nos parques europeus. Aqui o eu lírico lamenta o desaparecimento das imagens originais. “Onde as tuas bananeiras?”…

Fica a dica de um livro incrível, que marcou a década de 20 no Brasil e ainda hoje tem relevância!

Para entender melhor os conceitos freudianos:

https://juorosco.blog/2017/04/27/resenha-livro-o-mal-estar-na-civilizacao-sigmund-freud/

Algumas obras de Villa-Lobos:

 

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3 comentários sobre “Resenha livro: Pauliceia Desvairada – Mário de Andrade

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