Resenha crônica: Gaetaninho – Alcântara Machado

Bairro do Bexiga, c. 1930.

“Gaetaninho” faz parte de uma série de crônicas, que está no livro Brás, Bexiga e Barra Funda, que foi publicada entre 1920 e 1945. Um período caracterizado pela contestação de modelos literários europeus.

Alcântara Machado começa o prefácio afirmando: “Durante muito tempo a nacionalidade viveu da mescla de três raças que os poetas xingaram de tristes: as três raças tristes.” 

“Assim, os navios europeus começaram a chegar trazendo os italianos, uma raça aventureira. Do consórcio desses imigrantes com os indígenas nasceram os mamalucos.” 

O objetivo da coletânea de crônicas é celebrar a novíssima “raça de gigantes”, que resultava da mistura de italianos e brasileiros. No entanto, o que vemos nas narrativas é uma denúncia da miserabilidade vivida pelos imigrantes.

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Foto de um cortiço no Brás, c.1945. Os imigrantes pobres viviam em cortiços.

O conto começa com a personagem Gaetaninho, que é uma criança, “banzando” pela rua. Um carro Ford passou e quase o derrubou, mas ele não viu.

Pelo nome da personagem podemos perceber, que o menino é um imigrante italiano, e pela movimentação dos carros, compreendemos que se passa em uma metrópole, no caso São Paulo.

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Peter Scheier. Cortiço no Brás – Coleção Pirelli / MASP

Gaetaninho sonha com a morte de sua tia Filomena. Ele iria na boleia do caminhão de bombeiro, vestindo sua roupa de marinheiro e seu gorro branco. Sua tia ficou sabendo do sonho e ficou com raiva. Então a mãe de garoto resolveu mudar o nome do morto para o de seu Rufino que era acendedor da Companhia de Gás.

“Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.”

A menção da Rua Oriente no Brás faz referência ao primeiro bairro proletário de São Paulo. Os italianos, que a elite cafeeira e o governo incentivaram a vinda, estavam tendo uma vida difícil.

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Rua Oriente no Brás, c. 1950.

Gaetaninho tinha uma vida pobre, porém ele queria ser notado, por isso, aspirava andar na boleia de um caminhão, mas isso só seria possível através do enterro de alguém.

Quando vemos documentários sobre a família Matarazzo e o Martinelli acreditamos que a vida dos europeus que vieram para cá foi repleta de sucessos e abundância financeira. Engano, a maioria vivia de forma precária.

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Imigrantes italianos. A maioria dos imigrantes viviam de maneira precária.

Os imigrantes habitavam em casas precárias em São Paulo. Foto do início do século XX.

Alcântara Machado incorporou a oralidade em suas tramas, além de uma linguagem jornalística, que narra os pormenores do mundo do protagonista.

“O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.” 

O autor baseou-se nos filmes de Charlin Chaplin, que mostrava o cotidiano das pessoas. Além disso, ele fez uso do discurso indireto livre, em que não fica claro se a fala é do narrador ou das personagens, como no exemplo abaixo.

“Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.

_ Vá dar tiro no inferno.

-Cala a boca, palestrino!”

Alcântara Machado soube exprimir até mesmo as alterações no vocabulário trazidas pelos imigrantes, como a utilização das palavras “muque” e “palestrino”. O nome Gaetaninho, um nome italiano com acréscimo do sufixo -inho, significa uma aclimatação dos imigrantes.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, aponta o apego brasileiro ao uso do diminutivo. É a maneira que encontramos de fazer com que as pessoas e os objetos fiquem mais próximos do coração, apreendemos pelo sentimento.

O conceito de homem cordial, empregado por Sérgio Buarque de Holanda, significa que o brasileiro age pela emoção e não pela razão (isso não é um elogio). Essa ideia de brasilidade está presente na referida crônica.

Alcântara Machado quis denunciar a quantidade de mortes ocorrida nas cidades, que era alta, tanto em relação ao número de acidentes, quanto de doenças. A cena primordial da modernidade seria essa:

“Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.

No bonde vinha o pai do Gaetaninho. 

A gurizada assustada espalhou a notícia na noite. 

– Sabe o Gaetaninho?

-Que é que tem?

-Amassou o bonde!”

 

 

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