Resenha Filme: Ferrugem e Osso – Jacques Audiard

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O filme é baseado nos contos “Rocket Ride” e “Rust and Bone”, do livro Rust and Bone, do escritor Craig Davidson.

A narrativa começa com a personagem Ali e seu filho, dentro de um trem na Espanha, onde o protagonista pega restos de comida para alimentar a ambos. Chegando na França, sem trabalho e dinheiro, ele pede ajuda a irmã, que os abrigam.

Ali consegue emprego como segurança em uma boate. Ao apartar uma briga ele socorre Stéphanie, que estava apanhando de um bêbado. Ele a leva para a casa e sobe em seu apartamento. Ele deixa seu telefone com a moça, caso ela precisasse de algo.

No dia seguinte a jovem, que era domadora de orcas assassinas, vai ao trabalho e sofre um acidente. Ela acorda na cama do hospital sem as duas pernas. Com uma melancolia extrema, ela resolve ligar para Ali.

O protagonista não a trata com pena e a deficiência dela de uma forma bem prática. Ele a leva para a praia para que a moça pudesse se distrair.

Essa cena é muito interessante, Stéphanie começa a boiar e sente prazer. A água nesse contexto, simboliza o renascimento, como se fosse uma espécie de batismo.

Conforme eu assistia ao filme, ficava claro que Audiard tratava do relacionamento do homem com seu corpo, além da capacidade humana de resiliência e adaptação.

Ao longo da história humana o corpo foi compreendido de diferentes maneiras. Na Idade Média o corpo era visto como cárcere e estorvo para o espírito. Segundo o filósofo cristão São Tomás de Aquino, o corpo seria a parte inferior do ser humano, sendo somente um instrumento da alma.

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Pintura medieval de Maria com o menino Jesus. 1288. Pouco destaque para o corpo.

Na Renascença o corpo adquiriu um status mais importante. Ele passa a ser estudado e ter a sua beleza cultuada.

Sandro Boticelli. O nascimento de Vênus. Nesse período o corpo passa ser cultuado.

Com a Reforma Protestante, o corpo passa a ser novamente compreendido como algo ruim. A disciplina e o trabalho passaram a serem valores cultuados. Jean Calvino, teólogo protestante que deu origem a teologia calvinista, disse no final da vida, que pedia a Deus perdão por ter cuidado tão mal de seu corpo. Ele sofria de fortes dores estomacais.

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Quentin Matsys. O cambista e a mulher. Para os protestantes o corpo deveria ser domado e a energia criativa deveria ser destinada ao trabalho, como uma forma de louvor a Deus. Na imagem vemos o cambista trabalhando e sua esposa, lendo a Bíblia: duas formas aceitas de servir a Deus. 

No protestantismo o corpo, assim como os instintos deveriam ser sufocados, para que o espírito pudesse triunfar.

Na modernidade, Nietzche “matou” Deus e também a ideia de alma. “Tudo é corpo e nada mais; a alma é apenas o nome de qualquer coisa do corpo.” (Assim falou Zaratustra)

Toda essa explicação serviu para entendermos como Audiard trabalhou a questão corporal no filme. Para o cineasta o ser humano é corpo, e é nele que reside o conflito entre a Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte, tão presentes em Ali e Stéphanie.

De Rouille et d'Os
Stéphanie domando baleia assassina. Destaque para o corpo. Imagem de divulgação.

As duas personagens utilizam seus corpos para o trabalho, seja como lutador de boxe, em uma rinha humana, seja para domar orcas assassinas. Ambos buscam no perigo da morte a vida.

De Rouille et d'Os
Ali participava de luta livre em troca de dinheiro. Os corpos abrangem praticamente a tela inteira.  Imagem de divulgação.

Stéphanie aceita redescobrir seu corpo, agora um corpo mutilado. Ali é parte essencial no processo, pois ela se apaixonará por ele.

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Stéphanie irá redescobrir o seu corpo. Ali será parte importante no processo. Imagem de divulgação.

O filme também aborda a precariedade de oportunidades vividas pelos pobres na França. Ali é contratado para colocar câmeras escondidas em empresas. A irmã dele é filmada roubando iogurte vencido que seria descartado no supermercado em que trabalha. Ela é demitida por isso.

Ali vai para Estrasburgo para se tornar lutador de boxe profissional. Seu filho é levado pelo tio para visitá-lo. O menino acaba caindo em um buraco de gelo e é salvo pelo pai, que machuca sua mão, quebrando o mesmo para salvá-lo. Novamente Audiard trabalha com a vida e a morte, além da utilização da força e do corpo.

Fica a dica de um filme excelente!!

 

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5 comentários sobre “Resenha Filme: Ferrugem e Osso – Jacques Audiard

  1. Adorei o post, Juliane! 😊Esse assunto sobre o corpo é muito interessante. Cada vez mais contemplamos muito uma determinada estética corporal, o que dificulta ainda mais a adaptação e aceitação de qualquer corpo visto como diferente por não se encaixar ao padrão da maioria.

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  2. Oi Ju. Gostei muito da sua explicação do olhar sobre o corpo, do ponto de vista religioso e econômico. O corpo voltado para o trabalho e para o sacrifício ainda está bem presente na nossa cultura, né? Meu marido que adora um bom drama se interessou bastante pelo filme! Bjos! 🌸

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