Resenha livro: O Lobo da Estepe – Hermann Hesse

Hermann Hesse (1877-1962) nasceu na Alemanha e naturalizou-se suíço em 1923. Foi contista, ensaísta e editor de importantes obras da literatura alemã. Em 1946, o autor ganhou o Nobel em Literatura.

Hesse seria um ícone de uma Alemanha caótica, que estava sofrendo uma fragmentação cultural, advinda das novas formas de progresso.

A trajetória do escritor remonta ao Romantismo alemão, como por exemplo, a grande ênfase ao indivíduo, a importância a tomada de consciência de si e a busca do conhecimento da cultura oriental, como a indiana e a chinesa.

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O Lobo da Estepe foi escrito em 1927, fez muito sucesso. Não é um livro que você passará por ele inocuamente, pois ele mexerá com sua psiquê. As obras Demian (1919) e Sidarta (1922) compõem trilogia.

A obra versa sobre a personagem Harry Haller, que tem uma certeza: Dentro dele habitam duas personalidades o homem e o lobo. Enquanto um vive o outro ri e graceja. Enquanto o homem predomina, o lobo se sente incomodado e vice-versa.

As iniciais HH remetem diretamente a um caráter autobiográfico, sendo apenas uma das “brincadeiras” de estilo do autor, mostrando para nós que há uma projeção pessoal sobre a obra.

Harry Haller é um homem de 48 anos, que aluga um quarto mobiliado na casa de uma senhora, onde passa a viver isolado do mundo.

Todo o problema do protagonista é um permanente mal-estar, cuja fonte é uma inadequação do seu eu à sociedade de massas.

A personagem não se sente seduzido pelo consumo, preferindo o isolamento, as tavernas pobres, os vinhos baratos, ao lazer burguês que Harry (e Hesse) abomina.

Em um diálogo ele diz: “Não se pode colocar no mesmo plano a música de Mozart e o último foxtrote. E não é a mesma coisa servir ao público música divina e eterna ou música barata e efêmera.”

Ele é um indivíduo que valoriza somente a experiência. Uma pessoa que não encontra a felicidade no coletivo, mas somente em si mesmo.

Harry Haller é  categoricamente um antiburguês. No entanto, ele faz algumas concessões como morar em casas burguesas, onde predominam a ordem e a limpeza.

As personagens Hermínia, Maria e Pablo são desdobramentos da personalidade do protagonista. A primeira sempre afirma ser o espelho de Harry.

Ele toma contato com ela em uma festa, onde Hermínia diz que ele vai se apaixonar por ela, porém a moça quer que ele a mate.

Maria simboliza o corpo de Harry, sendo uma parte da  Hermínia. Ela tem uma libido desenvolvida e vê as coisas do ponto de vista físico.

Em um diálogo das duas personagens temos (Maria): “Olhe, quando você me beija o pescoço ou a orelha, sinto que gosta de mim e que gosto de você; você sabe beijar de uma maneira que parece tímida…”

Pablo é a versão masculina e artística de Harry, tocador de saxofone. Ele também tem uma libido desenvolvida.

Todas essas pessoas se encontrarão em o teatro mágico, que simboliza o efeito das drogas. A partir delas seria possível conhecer todos os eus de uma pessoa.

Todas as personagens vivem isoladamente (até o teatro mágico), porém todo mundo se relaciona com Harry e por sua vez com o lobo da estepe.

No posfácio da obra, Hesse diz que o livro trata de sofrimentos e necessidades, mas mesmo assim não é um livro de um homem em desespero, mas o de um homem que crê. A crise não conduz à morte, mas à redenção.

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14 comentários

  1. livro cult para a minha geração, e que me acompanhou durante boa parte da transição adolescência/vida adulta. à época, quem não se identificava com o lobo da estepe? gostei muito da resenha e de retornar no tempo. meu abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Nossa, que legal, você ter tido contato com esse livro na adolescência. Ele era o livro preferido da Clarice Lispector, então já podemos imaginar como a obra deve ter sido importante para as pessoas que leram!! Obrigada por vir aqui!! Abçs!

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  2. Em 1986 eu sai de São Paulo e fui até ao Rio de Janeiro, ao Maracanã assistir um jogo de futebol, na volta na Estação Rodoviária comprei ” Siddarta ” do Hermann Hesse e vim lendo boa parte do livro dentro do ônibus, foi meu primeiro contato com a obra dele, agora com sua postagem. me descubro com alguma identificação com este personagem, isto atiçou minha vontade em ler esta indicação !

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  3. Esse verdadeiro petardo da literatura alemã [nenhum povo escreve como o alemão, uma prosa poético-filosófica – é um absurdo!] com certeza está no meu Top10. Sem dúvida. Livro da Vida, meu Zeus do zéu!… rss
    Um abção, Juliane!

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      1. Ow, Juliane, obrigado por lembrar do post montanhoso. rss. Sugiro também, se me permite, Robert Walser e Robert Musil (2 Roberts rs.).

        Walser era suíço e escritor favorito de Kafka, admirado também por Musil, Canetti, Camus e Mann. Escrevia em microgramas que precisou de estudiosos para decifrar sua letrica com lupa, de maneira que encontraram 3 romances e centenas de contos e poemas. Um verdadeiro gênio recluso e incompreendido. Viveu seus últimos 25 anos em um sanatório tendo contato apenas com seu editor. Morreu no natal de 1956 durante um passeio com seu cão na neve. No Brasil saiu O Ajudante, romance autobiográfico que retrata o período em que trabalhava em casas de família como “faz-tudo” relatando as humilhações por que passou. e a obra-prima Jakob Von Gunten – um diário.

        Musil, escritor austríaco, é o autor de Um Homem sem Qualidades, um romanção de 1200 páginas. Li mais da metade mas tive que abandonar por conta da faculdade. É sobre um jovem de 30 anos que ainda não sabe o que quer da vida. Filosofia, matemática, literatura. É um intelectual. No fim das contas se envolve em encontros com a aristocracia, principal conselheiro do príncipe, suas ideias acabam tendo relevância para os rumos do Império Austro-Húngaro. Caso incestuoso com a irmã….. Pai moribundo e a questão da herança familiar…. Livraço! Tem uma novela dele também: O Jovem Törless. Acho que é a sua cara: num internato, jovens mais frágeis são espancados, sofrendo inclusive abusos sexuais, numa espécie de autoritarismo pré-nazifascismo.A novela é de 1906.

        Beijuss de luz!

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  4. é legal a narrativa em camadas, a da sobrinho da senhoria, a de HH e a psicanalítica, do tratado. na verdade me identifico com isso mesmo, o prazer e o horror de um ambiente, uma vida, ordenada e decente. herminia e maria e o proprio lobo sao o amor de que ele necessitava, mas o destino dessa satisfacao nao é ser feliz, ate porque o ser feliz não pode durar

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