Resenha livro: Doze contos peregrinos – Gabriel García Marquez

Doze contos peregrinos é uma obra que discute a identidade latino-americana. O livro é uma reunião de doze contos, que possuem uma conexão entre si.

A imagem pode conter: pessoas sentadas, mesa, bebida e área interna

Todo o texto tem uma significação sociopolítica e o conceito de identidade não poderia ter outra forma do que a narrativa, pois definir-se em última instância é narrar.

O autor diz que a primeira ideia do livro lhe ocorreu no começo da década de setenta, depois de um sonho, quando estava morando há cinco anos em Barcelona.

“Sonhei que assistia meu próprio enterro, a pé, caminhando entre um grupo de amigos vestidos de luto solene, mas num clima de festa. Todos parecíamos felizes por estarmos juntos. E eu mais que ninguém, por aquela grata oportunidade que a morte me dava de estar com meus amigos da América Latina….”

Interessante observar que há para o autor uma associação entre a morte e a descoberta da identidade latino-americana em solo estrangeiro.

As histórias versam sobre diversos latinos no continente europeu, com sentimentos e situações que falam sobre o amor, a morte, poder e ressentimento.

García Marquez explica no prológo que a obra permaneceu como esboço durante muito tempo.

Os contos também são peregrinos, pois eram “viajantes” do cesto lixo para a mesa.

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O primeiro conto “Boa viagem, senhor presidente” narra a história de um presidente deposto da Martinica.

O presidente estava andando pelas ruas de Genebra e foi reconhecido por um conterrâneo seu chamado Homero, que lhe segue para vender-lhe um seguro.

O presidente não tem nome, mostrando que a personagem pode ser qualquer presidente latino-americano deposto, como Salvador Allende, João Goulart, Frederico Chávez, Arturo Frondizi, etc.

O que não faltam na América Latina são golpes de Estado. Não temos como compreender esse continente sem as referidas ditaduras, assim como o latino americano é fruto delas.

A ideia de identidade perpassa o perseguido e exilado político, além daquele que emigra por motivos econômicos.

No conto “Só vim telefonar”, conhecemos a personagem María de la Luz Cervantes que dirigia seu carro para Barcelona, quando uma pane no deserto de Monegros a deixa debaixo da chuva.

Era uma mexicana de 27 anos, bonita e séria, que anos tivera certo nome como atriz de variedades. Perdida no meio de uma chuva em uma estrada, ninguém lhe dá carona.

Até que um ônibus estranho para e ela sobe, dando graças a Deus. A personagem percebeu que no trajeto ninguém falava nada.

No local de parada ela percebe que o lugar é estranho e quando entra vê que se trata de hospício. A moça mexicana pede para usar o telefone e ninguém lhe dá bola.

Ela passa a ser considerada louca, os enfermeiros a amarra na cama, quando ela implora para usar o telefone. A personagem apanha, é obrigada a comer uma comida horrível e ninguém lhe escuta.

No caso desse conto, María foi conduzida para uma perda total de sua identidade e autonomia. Além do exílio forçado ela recebeu um tratamento extremamente violento.

Em um momento, María arranca a imagem do general Franco e arremessa, uma imagem muito simbólica.

Quantos “ônibus” de loucura nós pegamos ao longo da vida, sendo obrigados ou enganados. O último ônibus que pegamos colocou o Temer no poder.

Escritores como García Marquez criaram um conceito literário, enfatizando a produção artística também como política.

Compreender sobre essa realidade histórica é fundamental para entendermos a nossa identidade, sendo a América Latina um lugar tomado pela violência, perda de liberdade e solidão e todos nós estamos inseridos nisso.

Ao ler essa obra eu sempre lembrava da música: Debaixo dos caracóis, que Roberto Carlos e Erasmo Carlos compuseram para Caetano Veloso, que estava exilado pela Ditadura Militar em Londres.

 

 

 

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4 comentários sobre “Resenha livro: Doze contos peregrinos – Gabriel García Marquez

  1. Bem legal esse seu post, parece ser um bom livro. Os autores da América do Sul espanhola parecem que escrevem com muito mais engajamento político do que os brasileiros, eles consegue fazer uma leitura da história política do continente em seus romances.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Alan, que bom que vc gostou! Nós tivemos os escritores de 30, que eram engajados politicamente: Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz. Além, da geração anterior como: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Pagú. etc. Os latinos criaram o realismo fantástico, que teve mais repercussão internacional, com o Nobel de literatura ganho pelo García Marquez. Mas, sem dúvidas os escritores latinos tem um engajamento muito grande. Obrigada por comentar. Abçs!

      Curtido por 1 pessoa

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