Resenha filme: Josef Fritzl – A história de um monstro – David Notman-Watt

Em abril de 2008, o mundo ficou chocado com um dos mais horríveis casos de abuso já registrados.

Josef Fritzl encarcerou no porão, de sua casa, e estuprou regularmente sua própria filha – Elizabeth Fritzl, que com o pai teve 7 filhos.

O documentário reúne vários depoimentos de amigos e familiares além da narração em off, em primeira pessoa de um ator, que baseado no depoimento, que Fritzl deu à uma psiquiatra forense, narra a sua própria história.

Sua mãe era uma mulher austríaca considerada extremamente rígida. Seu pai era um vagabundo, que a esposa expulsou de casa. Segundo o relato de Fritzl, ela tinha acessos de ira e desprezo pelo filho, pois via nele a figura do pai.

De acordo com a psiquiatra, a raiva da mãe fez com que Josef nutrisse uma atitude dominante sobre as mulheres. A experiência também foi a mola propulsora para o desenvolvimento da capacidade de isolar realidades distintas.

Josef passou boa parte da infância no regime nazista, vivendo sob uma educação extremamente rígida e violenta.

Segundo depoimentos de amigos de infância, ele era considerado um excelente aluno e um garoto com uma inteligência acima da média.

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Foto escolar com Josef Fritzl.

 

Frtizl se formou em engenharia e conheceu sua futura esposa – Rosemarie.

Nessa história sempre me interessou a esposa dele. Quais os mecanismos fizeram com que ela o aceitasse? Apesar da filha dizer que a mãe não foi responsável, Josef jamais faria o que fez, sem a conivência dela.

O documentário não responde todas as perguntas, mas dá algumas pistas.

Rosemarie recebeu uma educação extremamente rígida, em que era espancada constantemente por sua mãe, segundo relatos de sua irmã.

Era uma pessoa extremamente tímida e quieta, não demonstrava ter nem um pingo de auto-estima.

Josef Fritzl a tratava como um lixo. Chamava-a de gorda e feia e não dava um centavo para seu sustento, mesmo trabalhando como engenheiro e ganhando razoavelmente bem.

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Rosemarie com Josef Fritzl.

 

O padrão de vida da família era muito baixo em comparação com o que Josef recebia.

Ele foi acusado de tentar estuprar uma mulher e por isso ficou preso, quando saiu a esposa o aceitou de volta.

Também foi acusado de colocar fogo em uma pensão foi encarcerado, e livre, Rosemarie o aceitou.

Josef maltratava os 7 filhos em especial Elizabeth,que ele dizia detestar.

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Foto de Elizabeth Fritzl.

 

Segundo a mãe, de uma amiga de infância de Elizabeth, ela era extremamente tímida e quieta, como Rosemarie.

A mãe da amiga disse que uma vez perguntou porque Josef maltratava tanto a filha. Rosemarie respondeu que simplesmente ele não gostava da menina.

Os estupros começaram aos 11 anos, na adolescência Elizabeth tentou fugir de casa, a polícia a capturou e a levou de volta para os pais.

Josef começou construir um porão em sua casa, com a desculpa de que precisava de um refúgio em caso de guerra.

Em 20 de agosto de 1984, Elisabeth desapareceu. Fritzl a sedou com éter e a prendeu no porão reformado.

Ela permaneceu dois dias acorrentadas e seu cativeiro duraria 24 anos. Nesses dias ela foi estuprada mais de mil vezes e teve sete filhos, um deles não sobreviveu.

Um jornal austríaco disse que Josef afirmou que teve tantos filhos com Elizabeth para que ela ficasse para sempre com ele. “Uma mãe de 6 filhos jamais é atrativa aos olhos de outros homens.”

Fritzl fez a filha escrever uma carta dizendo que estava em uma seita. Também quando seus filhos precisavam de tratamento, Elizabeth implorava ao pai, que subisse com eles, para levá-los ao médico; e as crianças simplesmente apareciam na porta da casa.

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Rosimarie Frtizl com os netos.

O confinamento de Elizabeth foi uma maneira que Josef encontrou para lidar com os dois lados de sua personalidade, o homem distinto, trabalhador e pai de família versus seu lado sombra – o estuprador.

Rosemarie ao que parece nunca questionou, simplesmente aceitou a  versão da seita e o aparecimento misterioso dos netos.

Nessa história, a personalidade de Josef é muito assustadora, mas para mim, a de Rosemarie também.

No decorrer do documentário eu me perguntava quais os mecanismos presentes, que a fez aceitar um marido estuprador e incendiário, que a tratava como lixo  ainda ter 7 filhos com ele e aceitá-lo de maneira tão submissa.

Quando ele começou a abusar de Elisabeth ela não viu, assim como nunca viu nada?

Possivelmente, anos de assédio moral da mãe, mais os espancamentos a que foi submetida na infância produziram uma personalidade extremamente submissa.

Assim, como os abusos de Josef contribuiram para deixá-la ainda mais passiva.

Uma coisa é certa para que Josef pudesse existir, ele precisou de Rosimarie. O abusador não existe sem o abusado.

Dessa forma, o documentário nos deixa com muito mais perguntas do que respostas.

Pessoal, estamos com uma campanha no Padrim. Quem puder contribuir, clique aqui para entender melhor: https://www.padrim.com.br/juorosco

 

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9 comentários sobre “Resenha filme: Josef Fritzl – A história de um monstro – David Notman-Watt

  1. Este monstro, reside dentro do cérebro de cada um de nós, e isto não é uma justificativa para se aceitar, quem o deixa vir a tona.
    Se num exercício de imaginação tirássemos a espécie humana do planeta, simplesmente desaparecia como num passe de mágica todo o mal tudo que existe de ruim e perverso sobre o solo terreno, pensem um pouco nisto.
    No caminho da evolução de primata a humano, houve um momento em que, começamos a sair da constituição de um cérebro arcaico para um complexo, que passou a permitir formas de pensamentos que foram tendo domínio sobre o anterior até se concretizar no que somos atualmente ( dai a alegoria bíblica da passagem da morte do primata e nascimento do humano ao tocar na árvore proibida, isto dizendo forma bem trivial porque o assunto é de uma complexidade que requer aceitar-se a imponderabilidade do metafísico como explicação plausível ).
    Ao ganharmos a condição de pensantes, saímos da condição puramente animal, para um patamar mais alto na escala evolutiva, e ai tanto material quanto espiritual, então pagamos um preço por adquirirmos esta condição, pois temos de lutar constantemente contra nós mesmos. Todos nós pensamos as mesmas coisas, sejam boas ou más, a diferença está no auto controle originado na criação individual de cada um ou grupos específicos , aonde entram ética, educação, conhecimento, culturas e tradições. O mesmo cérebro que ama é o que odeia, o mesmo que cura, é o que mata.
    Todos os acontecimentos humanos, são gerados pelo intelecto, pela combinação da criação através das sinapses, que geram idéias, pensamentos que vão encontrar solo fértil ou não para concretização e materialização do evento criado.
    Em suma, somos todos passíveis de fazer qualquer coisa, boa ou ruim, você, eu, cada um de nós, somos todos iguais, não descarte ninguém, apenas acontece que alguns conseguem controlar seus pensamentos e direciona-los para algo mais civilizado , mas não que não tenha capacidade cognitiva de praticar o errado. O juiz que julga e manda punir, também tem os mesmo anseios e pensamentos humanos iguais a todos, apenas os controla. Vivemos a cada segundo a divina tragédia humana !

    Curtido por 2 pessoas

    • Oi Sidney, muito interessante a sua explanação!! Sua contribuição aqui é muito legal e ajuda a enriquecer o debate, que é o objetivo do blog! Só tenho uma dúvida se no lado sombra de todos os seres humanos, contém tudo de mal. Visto que não passamos pelas mesmas experiências. Fritzl, por exemplo, teve uma mãe horrível, que o desprezava. Ele ainda foi educado no regime nazista. Honestamente, não sei esse ponto. Obrigada por compartilhar seu conhecimento conosco! Abçs!

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      • Juliane,eu particularmente penso que não existe lado sombra, ou oculto ele está lá tão latente, quanto ao que chamamos de lado bom, nosso cérebro e constituição mental possui em simultâneo as duas alternativas. Mas concordo contigo, o que é mal pra um pode ser bem pra outro, a ação relacionada ao fato é que vai designar o contexto desta ação, Explico :- se estou num parque e escuto um choro de criança num arbusto e ao aproximar-me vejo um adulto tentando abusar da criança e posso pegar uma pedra ao chão e bater na cabeça dele, então pra ele eu fiz um mal, mas para a criança eu fiz um bem, isto a luz de um julgamento da ação. No texto anterior eu tentei reforçar este fato de que todos podemos e temos capacidade tanto pra fazer um mal quanto um bem, não existe um ser humano que não possa fazer as duas ambiguidades citadas, ou seja aquele cara que sempre pega a pedra pra apedrejar o outro, num contexto mais amplo é passível de cometer ou pensar as mesmas ações pela qual,não aceita no outro. Enfim temos todos de viver com este barulho existencial, parabéns pelo seu blog, sempre com profundidade nas análises !

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  2. Que história monstruosa! Achei o comentário acima interessante e pode ser que quem o escreveu entenda mais do assunto do que eu, mas, empiricamente, não acho que somos todos passíveis de fazer coisas bizarras contra a própria prole e cônjuge, pois não estão na cabeça de qualquer pessoa. Só não temos como adivinhar quem (inclusive juízes, médicos, engenheiros, professores, pais, mães, avôs etc) são as pessoas bizarras que pensam ou até agem assim. Ótimo post como sempre. Bjos!

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    • É verdade, aquele livro o Psicopata Mora ao Lado trata bastante disso. Por trás das máscaras sociais podem esconder-se personalidades bizarras. Mas, o que mais me intrigou em tudo foi a mulher dele, que deveria ser objeto de estudo em cursos de psicologia. Bjs!

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  3. São tantas histórias de relações doentias reproduzindo mais relações doentias. A Elizabeth, apenas por ter algumas características da personalidade da mãe, obviamente por ser filha dela, isso gerou o motivo que justificasse na cabeça desse doente para violenta-lá de diversas formas por tantos anos. Realmente os monstros existem e estão entre nós.

    Parabéns pelo post!

    Bjs,

    Melkberg

    Curtido por 2 pessoas

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