Resenha livro: Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda

Você sabe com quem está falando?

– A Fulana é muito metida, fica trabalhando ao invés de tomar café com a gente!

– Aquele profissional é qualificado, mas não é divertido, nunca subirá na empresa.

– Meu chefe é tão bom, ele me trata como se eu fosse da família!

– Fulano foi promovido na empresa, mas ele mais falta do que trabalha.

Quem nunca ouviu algumas dessas frases ou coisas parecidas? Esse ethos (jeito) são em grande parte responsáveis pela fragilidade democrática brasileira.

Raízes do Brasil (1936) é um livro ainda muito atual, pois trata principalmente das causas do atraso brasileiro e da dificuldade de se estabelecer uma democracia brasileira.

Resolvi abrir com essas frases, pois nelas contém tudo aquilo que para Sérgio Buarque impedia o desenvolvimento e a constituição do nosso país como nação.

A ideia principal do livro está no desenvolvimento do conceito do homem cordial, que pressupõe a ação a partir da emoção e não da razão.

Que fique bem claro, isso NÃO é uma qualidade do brasileiro, mas um problema, pois o homem cordial faz valer a vontade dele em detrimento do coletivo.

Um dos desdobramentos da cordialidade é o Estado patrimonialista, em que o interesse particular se sobrepõe ao coletivo. Por exemplo, o prefeito faz uma obra desnecessária na cidade, para beneficiar a empreiteira do amigo e ganhar uma comissão por fora.

Outro fenômeno é a intensa intimidade com pessoas, que pressupõe uma forma de dominação. Como por exemplo, o uso do diminutivo nos nomes: Aninha, Paulinho, etc. Até os santos ganharam apelidos como Santa Terezinha.

Olhando isso parece que todos são amigos, o que não é verdade. Com a mesma facilidade que uma pessoa acrescenta o sufixo inho, ela te dá uma facada nas costas.

O sentimento religioso é corrompido. A religiosidade se perde em um mundo sem forma e que, por isso não funciona como coesão social. Um culto sem obrigações, sem rigor, intimista e familiar, um culto que dispensa o fiel de todo o esforço.

Isso resultou em igrejas que colocam a culpa do erro do fiel no diabo, dispensando-o de melhorar sua conduta.

A compreensão de que o governo é formado por uma imensa família, é muito problemática, pois em família tudo se perdoa.

Exemplos dessa concepção não faltam: Getúlio Vargas é o pai da nação. Dilmãe, também foi mãe do PAC, são algumas referências.

São muitos os homens cordiais na literatura, no cinema e na música.

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Almeida Júnior. Amolação interrompida. 1905

Nessa obra observamos que Almeida Júnior retratou o caipira interrompendo a amolação, para cumprimentar alguém, no entanto, ele não largou a mão do machado, retratando uma personalidade dúbia.

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Capitão Nascimento de Tropa de Elite.

O Capitão Nascimento é o típico homem cordial. Agia  pela emoção, torturando pessoas para encontrar o traficante, que matou seu amigo.

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…” Trecho da música Fado Tropical de Chico Buarque.

Para o autor o fenômeno da cordialidade foi gerada por um personalismo herdado da colonização portuguesa, que se desenvolveu em um terreno fértil no Brasil – o latifúndio.

Sérgio Buarque também compara a colonização brasileira com a colonização latino americana.

O espanhol era um ladrilhador, enquanto o português um aventureiro.

Na América espanhola existia projetos de nação, enquanto no Brasil visava-se apenas a exportação de pau-brasil, posteriormente do açúcar. A Hispano-América também exportava, mas as colônias não existiam só para isso havia um planejamento da existência delas à longo prazo.

Dessa mentalidade portuguesa advém o famoso jeitinho brasileiro, “o fazer nas coxas”. As coisas ocorrem sem nenhum planejamento e organização, pois não há ideia de um futuro, só existe o presente.

Isso também explica uma educação tão desvalorizada, pois preocupa-se somente em formar mão de obra barata, aqui e agora. Não há projeto por parte de nenhum governo para o desenvolvimento de novas tecnologias, que desenvolveria bem mais o Brasil.

Para o autor o nosso passado é um obstáculo e a liquidação das raízes seria o imperativo para o desenvolvimento de uma democracia e um desenvolvimento de fato.

Sérgio Buarque de Holananda (1902-1982) foi um historiador, crítico literário e jornalista. Escreveu obras importantes como: Monções, Caminhos e Fronteiras e Visão do Paraíso. Ele é pai do cantor e escritor Chico Buarque de Holanda.

 

 

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