Resenha filme: Mãe! Darren Aronofsky (contém spoilers)

Mãe! é um filme polêmico, que tem gerado muitos elogios e críticas, ninguém que assistiu ficou isento.

Eu gostei bastante do longa e explicarei o porque, ao longo da resenha.

Essa obra é passível de muitas interpretações, pois o cineasta deixou-a completamente em aberto. Eu darei a minha baseada um pouco na Psicanálise.

Nenhuma das personagens possuem nomes. Jennifer Lawrence é Mãe e Javier Barden é Ele e Poeta.

Mãe é uma dona de casa, que vive reclusa em uma residência estilo vitoriana. No início do filme vemos que ela estava incendiada. O Poeta e a jovem caminham em direção à ela.

A protagonista dedica seu tempo a reconstruir a residência, enquanto Ele tenta escrever um livro.

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Jenifer Lawrence como Mãe. Aronofsky optou por constantes closes no rosto da personagem. 

Em uma noite tranquila, bate na porta um senhor, que será conhecido no filme como o Homem. Ele diz, que estava de passagem no lugar e pensou, que ali fosse uma pousada.

O Poeta oferece hospedagem, sem consultar Mãe, que fica muito assustada e pergunta ao marido: Ele é um desconhecido, vamos mantê-lo aqui? E Ele responde: Sim, ele não tem para onde ir e eu preciso dele.

Coisas extremamente estranhas acontecem nessa noite. Homem passa mal e Mãe compreende, que ele está morrendo. A jovem descobre que ele é na verdade um fã maluco.

No dia seguinte, aparece a esposa do Homem, que também não tem nome e foi denominada Mulher.

O Poeta oferece também estadia para essa personagem, que demonstra ser uma pessoa completamente invasiva, despótica e totalmente desagradável. Ela faz perguntas estranhas, como por exemplo, – quando eles teriam filhos? Se eles faziam sexo.  Mãe fica constrangida e não responde.

Os filhos do Homem e da Mulher surgem na casa invadindo-a. Há uma briga entre eles, por conta da herança, e um deles morrem.

No piso do chão fica uma poça de sangue, que sempre que Mãe coloca o dedo, entra em outras dimensões da casa.

O casal faz sexo e Mãe acorda pela manhã dizendo, que está grávida.

Após a tragédia, o Poeta tem uma inspiração e consegue escrever seu grande poema, que tem seus exemplares vendidos em um dia.

Mãe faz uma comemoração e à noite, quando os dois estão prestes a jantar, uma aglomeração surge em frente à casa. São fãs, que estão esperando para conhecer o Poeta.

Em um breve momento as coisas saem do controle e essas pessoas começam a entrar na casa. Cada um começa a retirar um pedaço dela, que é completamente invadida.

As cenas acontecem todas dentro da casa. 

Mãe entra em desespero e começa a ter dores de parto. No meio da confusão o Poeta consegue trancá-la dentro de um quarto e o bebê nasce.

Quando a jovem pega no sono o Poeta dá o bebê para os fãs, que o mata e o come.

A partir daqui spoilers. 

A interpretação do filme não é literal, pois em muitas cenas percebemos, que a narrativa não corresponde ao mundo físico, mas ao onírico (sonho).

A casa simboliza a mente do poeta, que após uma criação precisa que ela se reconstrua com uma nova inspiração, por isso, no início vemos ela incendiada e destruída.

As personagens não são reais, elas habitam o mundo psíquico de Ele, são instâncias, por isso elas não são nomeadas.

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Mãe é uma instância do Poeta. 

Mãe é o lado feminino do Poeta, o qual Carl Jung chamou de anima. Ela simboliza o lado sensível, cuidador e maternal do escritor. Por isso, que não compreende nada, porque não tem conhecimento das outras partes e tem medo de ser enfraquecida por elas.

“A anima, sendo feminina, é a figura que compensa a consciência masculina. Na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino, e pode ser designada pelo nome de animus.” Carl G. Jung

Em várias cenas Mãe escuta a parede e vemos a imagem, que parece um feto, mas ao mesmo tempo uma massa amórfica. Possivelmente, simboliza a gestação da nova obra.

O Poeta depende de várias instâncias para poder criar. O Homem é a instância, que no filme representa o lado impulsionador, que inspira o escritor. Por isso, ele diz à Mãe, que precisa dele.

A Mulher é o lado sombra, simbolizando tudo aquilo que o poeta não gosta de si e recalcou. Ela é invasiva, despótica e quer pegar o lugar da Mãe na casa (a mente). A Mulher tenta dominar o ambiente, pois já tinha dominado o Homem.

Os dois rapazes que lutam e um deles morre refere-se ao mito arquetípico de Caim e Abel, que habita o inconsciente coletivo ocidental.

Segundo Jung, “o inconsciente coletivo é a instância psíquica mais profunda, que fornece imagens, que não são pessoais, mas são dos primordios da humanidade, manifestando-se em sonhos e aparecendo nos mitos.”

O nascimento do bebê significa a obra, que foi publicada. Os fãs apossando-se da casa, somos nós leitores, que lemos os livros, ficamos com um pedaço da mente do autor e carregamos a história conosco, que passa também a ser nossa.

As pessoas comendo o bebê faz referência a outro arquétipo -Jesus, em que as pessoas comem a carne e bebem o sangue e Aronofsky faz a comparação do Poeta com Deus (ambas figuras criadoras).

No final, a Mãe morre para dar lugar a outra versão da anima, que cuidará de outro processo criativo.

O tempo da narrativa é cíclico, do eterno retorno ao ponto de partida da criação.

Eu gostei muito do filme, achei uma grande obra de arte, pois nos faz pensar em muitos aspectos da vida e nos mostra a complexidade do processo criativo e da mente humana.

 

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10 comentários sobre “Resenha filme: Mãe! Darren Aronofsky (contém spoilers)

  1. Filme muito bom. O Homem é Adão e depois que ele passa mal e tem uma ferida na costela aparece a Mulher (Eva) que leva Adão até a pedra e derruba no chão. Depois disso “Deus” os expulsa do escritório, que seria como no jardim do Éden. É um filme todinho com referências bíblicas até o fim (apocalipse)

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  2. Oi, Juliane. Adorei o filme, mas minhas interpretações foram para um lado muito diferente do seu… rs Estava pensando em escrever sobre ele, mas acho que vai dar um trabalhinho… Bjs!

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  3. Pingback: Filme “Mãe!”, de Darren Aronofsky – 1 Pedra no Caminho

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