Resenha conto: Mineirinho – Clarice Lispector

“Esta é a lei. Mas se há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o  sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no  décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”  Trecho do conto Mineirinho.

Mineirinho foi uma crônica publicada em 1969, mas também pode ser compreendida como um conto.

Nessa obra, Clarice Lispector problematiza a partir de uma ocorrência policial verídica.

Em 1 de maio de 1962, os jornais cariocas noticiaram  a morte do assaltante Mineirinho, que tinha escapado de um Manicômio Judiciário, a pena dele era de 104 anos de reclusão.

Ele foi encontrado morto em um local afastado com 13 tiros, não havia sangue, possivelmente ele não foi assassinado no local.

Na crônica o alívio que poderia advir da segurança proporcionada pela morte de Mineirinho vai aos poucos, sendo transformado em falta de paz e vergonha, até atingir a transferência psicanalítica eu/Outro.

Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo afirma que a partir das Revoluções Burguesas, a burguesia concedeu ao Estado o monopólio da violência. Visto que no Feudalismo, a violência era privilégio da nobreza, pois somente ela podia portar armas e ir à guerra.

“Porque somos os sonsos essenciais”…..Nos fazemos de bobo, dormindo em nossas casas. A fala humana já tinha falhado com Mineirinho.

Dessa forma, quando o Estado faz uso de uma violência desproporcional toda a sociedade age junto, assim o narrador se coloca também como responsável pelos 13 tiros de Mineirinho, chegando ao ponto de se transformar no bandido.

Segundo o narrador do conto, Mineirinho carrega dentro de si o medo: “um homem que mata muito é porque teve medo”.

Dentro do contexto da narrativa, Mineirinho mata porque é um pária social, enquanto a Polícia que dispara 13 tiros contra ele, transgride o mandamento bíblico: “Não matarás”.

O uso do diminutivo inho (Mineirinho) demonstra um traço de afetividade e proximidade do narrador com o bandido. Mas, a opção do narrador vai além de se aproximar desse Outro, é se transformar nele.

Esse Outro aparece diversas vezes na obra de Clarice Lispector, um cego mastigando chiclete, uma barata no quarto da empregada e até em uma galinha.

Em o Mal-estar da Civilização de Freud vemos que para vivermos em sociedade precisamos recalcar sentimentos violentos, o que Mineirinho não faz.

No entanto, o narrador percebe que a violência de Mineiro está também presente nele e em nós: “Embaixo da casa está o terreno…” (inconsciente). “Tudo que nele é violência é em nós furtivo”.

Mineirinho mesmo antes de morrer já foi desumanizado, pois já havia sido destituído de sua subjetividade e teve sua existência excluída dentro da sociedade de consumo.

Dessa forma, ao deter o mal no Outro, também somos passíveis de executá-lo.

Esse conto me lembrou essa frase de Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”Para Além do Bem e do Mal.

Imagem relacionada

Clarice Lispector em entrevista fala sobre Mineirinho:

 

 

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4 comentários sobre “Resenha conto: Mineirinho – Clarice Lispector

  1. Olá 😄. Adorei a sua resenha! A análise sobre a crônica, citando filósofos e Freud deixou o seu texto incrível. Já li algumas obras dela e são nesses momentos que percebo o quão grandiosa é a nossa literatura brasileira. Clarice escreve como ninguém, ela mergulha no consciente e inconsciente e sabe descrever as mazelas humanas. 😄😄 Abraços

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