Resenha doc.: Quem matou Eloá? – Lívia Perez

Em 2008, Lindemberg Alves de 22 anos invadiu o apartamento da ex-namorada Eloá Pimentel de 15 anos, armado, ele a manteve durante 5 dias em cativeiro, posteriormente acabou assassinando a jovem e dando um tiro em Nayara amiga de Eloá.

O objetivo do documentário é discutir a questão do feminicídio no Brasil, focando na tragédia com Eloá. Além de refletir a respeito do papel da mídia e da sociedade no caso.

Quem matou eloá 3

Eloá namorou com Lindemberg durante 2 anos, uma relação completamente tumultuada. Ele terminou o namoro, depois pediu para reatar, a jovem não quis.

Um dia ele a encontrou em um ponto de ônibus e a espancou. Os pais de Eloá resolveram não denunciar, pois o pai era procurado pela polícia de Alagoas.

Também, há uma crença na sociedade, que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. O que pode ser fatal, tendo em vista a quantidade de mulheres que morrem nas mãos de marido ou namorado.

Quem matou Eloá

Quando Lindemberg invadiu o apartamento de Eloá e a manteve como prisioneira com a sua amiga Nayara, rapidamente a imprensa começou a noticiar.

Só enfatizando que o documentário e eu não somos contra a liberdade de imprensa, porém, analisando a tragédia cabe a reflexão sobre a espetacularização do caso.

Segundo Guy Debord, a sociedade capitalista é regida pelo espetáculo. Absolutamente tudo pode ser transformado em um.

O sequestrador sabia que estava sendo assistido por milhares de pessoas. De acordo com uma entrevista da Nayara, Lindemberg se vangloriava cada vez, que ele aparecia na televisão.

Quem matou Eloá2

A narrativa que foi construída pela mídia se assemelha a uma novela ou filme.

O caso ficava sendo noticiado a todo momento, com takes, cabeças de matéria e o corte para as propagandas. Isso conferiu ao acontecimento a ideia de ficção e de banalização.

Vinte e sete mil pessoas foram no enterro de Eloá. Honestamente, o que essas pessoas queriam ao ver um cadáver de uma jovem assassinada? Saber o final da novela? Logicamente, estamos excluindo parentes e amigos. Também não dá para deixar de falar da narrativa dada pela mídia ao caso.

Lindemberg foi representado pelo jornalismo como um menino trabalhador, que sofria uma crise de ciúmes. Chegaram a falar, que ele era um coitado.

Dessa forma, passa a impressão de que a culpa do que estava acontecendo era da Eloá, já que ele era um “menino” cheio de qualidades, “possivelmente ela fez algo para merecer aquilo”.

O discurso do comandante da polícia é ainda pior, ele afirma que não entraram no apartamento, pois, Lindemberg era um jovem trabalhador e cometeu “crime de amor”!

Você não leu errado, ele falou crime de amor. Agora, como pode alguém cometer crime por amor??? Amor a quem?? Só se for ao poder dele.

Todo o relacionamento esteve pautado em poder, Lindemberg entedia, que Eloá era sua propriedade. Ela não poderia existir sem ele.

O rapaz mata a jovem com um tiro na cabeça e outro na virilha, o que é bem simbólico.

A proteção e o foco em todo o momento foi dado a Lindemberg, Eloá estava em segundo plano.

Teve um advogado no programa da Sônia Abrão, falando que estava torcendo por um final de feliz, em que o sequestrador e a vítima acabassem se casando. Oi??? Felicidade seria ela sair viva.

Se Eloá se cassasse com Lindemberg seria de síndrome de Estocolmo; jamais um final de feliz.

O Brasil registrou ao menos 8 casos de feminicídio por dia entre março de 2016 e março de 2017, segundo dados dos Ministérios Públicos estaduais. No total, foram 2925 casos no país. Mesmo com a lei Maria da Penha as mulheres continuam a sofrer violência e a serem assassinadas.

O assassinato é a etapa final de uma série de abusos, que começa com a agressão verbal, depois isso vai se aprofundando até chegar a agressão física, depois o companheiro se “arrepende” e tudo recomeça.

A mídia tratou o caso como algo isolado fora do contexto em que 8 mulheres são mortas por dia, assassinadas por seus parceiros. 

Apesar da polícia e da mídia terem tido um papel questionável no caso, quem assassinou Eloá foi Lindemberg com sua mentalidade machista, que acredita que mulher é propriedade de homem. Infelizmente, ele não é uma exceção e nem um doente, mas fruto de uma sociedade machista.  

Fica a dica de um documentário, que nos traz reflexões fundamentais.

 

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s