Resenha livro: É isto um homem? –  Primo Levi

“Vocês que vivem seguros

em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite

encontram comida quente e rostos amigos,

pensem bem se isto é um homem

que trabalha no meio do barro,

que não conhece paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não.

Pensem bem se isto é uma mulher,

Sem cabelos e sem nome,

Sem mais força para lembrar.,

Vazios os olhos, frio o ventre,

Como um sapo no inverno.” Primo Levi

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Primo Levi foi deportado para Auschwitz em 1944. Dos 650 judeus italianos, que chegaram ao campo de extermínio com ele, apenas 3 sobreviveram.

Desnecessário avisar que o relato de Levi é real. Uma dificuldade que o autor teve foi de encontrar palavras, que dessem conta de expressar o que acontecia em Auschwitz.

Portanto, podemos entender que as coisas foram muito piores do que o relatado, pois as palavras nunca exprimirão a totalidade.

Primo Levi aborda o dia-a-dia em Auschwitz: os trabalhos pesados, humilhações, assassinatos em uma total desumanização.

As lembranças da vida anterior ao campo de concentração eram veladas e longínquas, quando apareciam eram extremamente tristes.

A fome não dava trégua, os judeus recebiam no almoço um pedaço de pão e uma sopa rala e na hora do jantar a mesma coisa.

Primo Levi faz questão de salientar, que não era uma fome de quando você não almoça, mas uma fome que doía dia e noite.

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Mulheres sobreviventes de Auschwitz.

 

Ninguém pensava em nada, que não fosse passar pela seleção médica, que definia se o prisioneiro iria para a câmera de gás ou ainda ficaria vivo e como encontrar comida.

Alguns detalhes são assustadores, como por exemplo, a dificuldade de encontrar vasilha e uma colher. Para tê-las os novatos tinham que trocar pedaços pão com os veteranos, que conseguiam os utensílios de algum morto.

Quando o prisioneiro chegava aos campos de concentração tinham seus cabelos raspados, perdiam o nome e ganhavam uma tatuagem com um número, perdiam as roupas e recebiam roupas velhas listradas e outros sapatos, que possivelmente não eram o número da pessoa.

Primo Levi fala sobre o problema com as roupas, que muitas vezes eram maiores que a pessoa e outras muito pequenas. Seu “pijama listrado” era muito grande, então ele teve que trocar alguns pedaços de pães para obter um fio de arame para utilizar como cinto.

A sujeira era terrível, os prisioneiros habitavam com diversos tipos de pulgas e piolhos.

O tifo era recorrente e dormir em uma “cama” com companheiros com essa doença era o pior pesadelo.

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“Cama” em Auschwitz.

 

 

 

 

 

 

 

 

Primo Levi faz uma análise muito interessante de alguns de seus companheiros de campo.

Elias Lindzin era um anão, que não passava de um metro e meio de altura. A força física dele era espetacular. Era um ladrão e possuía um instinto animal. Elias sobreviveu à destruição externa, porque era fisicamente indestrutível e resistiu à aniquilação interna porque era um demente.

Para sobreviver ao campo o caminho era o de Elias, da loucura e da bestialidade traiçoeira. “Não vemos continuar vivendo seres ignorantes de metas, fechados a qualquer forma de autocontrole e consciência? E eles não vivem apesar dessas lacunas, mas justamente (como Elias) em função delas. ” p. 99

Henri era um sujeito extremamente inteligente, falava ao todo 5 línguas e possuía uma ampla cultura científica e clássica.

Descobriu que fingir interesse pelos outros e também se fazer de coitado poderia render-lhe proteção e comidas extras. “Das suas conquistas fala com polida modéstia, como de presas de pouca importância, mas de boa vontade demora-se em expor o cálculo que o levou a abordar Hans (alemão) perguntando pelo filho dele, soldado no front, e Otto, mostrando-lhe as cicatrizes que tem nas canelas. ” p. 101.

Havia alguns caminhos para sobreviver ao campo, o primeiro era da total alienação como Elias, seduzindo com uma simpatia falsa como Henri, ou como uma mão de obra especializada e útil, como foi o caso de Primo Levi, que era químico.

Se o prisioneiro não tivesse nenhuma dessas qualidades se tornaria um “mulçumano”, apelido que davam a pessoa, que já não se importava com nada, apanhava e não sentia, ou seja, havia desistido de lutar pela vida. Por andarem curvados pareciam islâmicos rezando, por isso, o nome.

Primo Levi não faz nenhum juízo de valor sobre seus companheiros, apenas relata como essas pessoas sobreviviam. O problema para ele eram as condições em que estavam submetidos, pode ser que em uma vida normal seus comportamentos seriam bem diferentes.

“Preferimos pensar que, quanto a isso pode-se chegar apenas a uma conclusão: frente à pressão da necessidade e do sofrimento físico, muitos hábitos, muitos instintos sociais são reduzidos ao silêncio. ” P. 88

Para quem sobrevive à uma catástrofe como essa sempre restará o estranhamento do mundo, que separa nós sobreviventes e os outros do outro lado.

O maior pesadelo de Primo Levi era contar sua passagem pelo inferno e ninguém acreditar de tão bizarro.

O campo de Auschwitz foi libertado pelos soviéticos em 27 de janeiro de 1945. Primo Levi sobreviveu graças à muita sorte e por ser químico foi considerado um trabalhador útil. 

Ao voltar para a Itália recomeçou seu trabalho como químico, mas não conseguia libertar-se da terrível experiência, por isso, resolveu escrever suas memórias. Morreu em 1987, tendo publicado nove livros de testemunhos, ensaios e poesias.

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Primo Levi

Esse livro é o segundo da Maratona literária e foi escolhido para representar a obra com um ponto no título.

 

 

Maratona literária:

https://juorosco.blog/2018/01/17/maratona-literaria/

Auschwitz:

https://www.ushmm.org/wlc/ptbr/article.php?ModuleId=10005189

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