Resenha livro: Das Fogueiras da Inquisição às Terras do Brasil – Joseph Eskenazi Perniji

Joseph Eskenazi Perniji nos conta, através do seu livro, um pouco das memórias de sua família judia portuguesa, os Eliaou e os Vivas. O autor passará por inúmeros lugares, contando a trajetória de seus antepassados: Portugal, Amsterdã, Hamburgo, Nova York, Viena, Paris, Londres, Belém, Salvador, Rio de Janeiro e Israel.

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A partir de sua experiência pessoal com os habitantes de Belmonte (Portugal), que ainda se consideram judeus nos dias de hoje, Joseph sentiu-se impelido a escrever o livro.

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Placa em uma antiga judiaria em Portugal.

A narrativa é mesclada com diálogos fictícios e um fundo histórico verdadeiro.

“Corria o mês de outubro de 1496, já passados os dias temíveis, os Yomim Noraim, o Rosh Hashaná e o Yom Kipur. Na judiaria, na maior casa do bairro, mester Eliaou Vivas preparava-se para a chegada do sábado. Vestido com a sua túnica do mais alvo linho, solidéu a cobrir-lhe a cabeça, debruçado sobre o manuscrito, iniciava as orações da tarde. ”

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Casa do judeu Abraão de Belmonte.

O ponto de partida é a Inquisição Portuguesa. Em 1497, após o casamento de Dom Manuel I com a infanta da Espanha D. Isabel de Castela e Aragão, o rei Dom João III estabeleceu o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição Portuguesa, seguindo o mesmo modelo adotado pela Espanha em 1478.

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Representação de torturas utilizadas pelo Tribunal do Santo Ofício.

Dom João III precisava dos judeus, pois constituíam um grupo importante economicamente e intelectualmente.

Na Páscoa, Dom Manuel prometeu aos judeus, que quem não quisesse se converter poderia seguir até Amsterdã, com navios disponibilizados pela Coroa. Porém, os judeus não poderiam levar as crianças menores de 14 anos, que seriam criados como cristãos em conventos.

No horário marcado, os judeus foram ao porto e ao invés de navios para Holanda, receberam o batismo forçado. Dom Manuel declarou: “Não temos mais judeus em Portugal, agora são todos cristãos”. 

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The Expulsion of the Jews from Portugal in 1497, in a 1917 watercolour by Alfredo Roque Gameiro. Representação da expulsão dos judeus em Portugal.

Muitos judeus continuaram praticando sua fé em segredo, gerando uma série de perseguições do Tribunal do Santo Ofício. Os hebreus convertidos eram chamados de cristãos-novos e de forma pejorativa de marranos. 

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Representação do Tribunal do Santo Ofício.

Os Eliaou e Vivas conseguiram fugir para Salônica, na época território do Império Otomano. “O sultão Bajazet regozijou-se com a imigração judaico-espanhola. Era preciso povoar e afirmar seus novos domínios. E perguntava-se: Quem são esses reis da Espanha que empobrecem seus reinos e nos mandam seus súditos para que enriqueçam os meus?”

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Judería de Córdoba. Estátua do filósofo judeu Maimônides.

Para narrar as memórias da sua família, o autor passa por vários lugares. Um desses é Granada, que foi um dos grandes centros do judaísmo espanhol e teve seu apogeu nos séculos XI e XII. Após o édito de expulsão dos judeus, toda uma civilização de 15 séculos, desapareceria, porém, não completamente. Coincidentemente, o dia da expulsão dos hebreus da Espanha foi dia nove do mês hebraico de Av (31 de março), também o mesmo dia da destruição dos grandes templos de Salomão e de Herodes. Os antepassados de Joseph conseguiram fugir para Istambul.

Resultado de imagem para condenada pela inquisição LUCAS VELÁZQUEZ, EUGENIO

Eugenio Lucas Velázquez. Condenada por la Inquisición. 1860. Museo del Prado.

Em Veneza, os antepassados do autor chegaram a morar no gueto veneziano. A vida no gueto era intensa, apesar das perseguições tinha duas sinagogas e uma delas era chamada de Portugal.

Com a queda do Império Otomano a família do autor veio para o Brasil e aportou em Salvador. Para sobreviver trabalharam como mascates.

Joseph narra alguns casos de antissemitismo sofridos por ele, isso contribuiu para que ele buscasse as suas raízes.

Apesar de muitos encontros e reencontros e mudanças de sobrenome, o autor, através de muita pesquisa conseguiu reconstituir a trajetória de sua família.

O livro é interessante, pois nos conta uma história por muitos brasileiros desconhecida, que são as raízes judaicas do povo português e por consequência dos brasileiros.

Esse é o terceiro livro da maratona literária. Consegui ler super rápido, pois a escrita é muito tranquila e a narrativa envolvente. A obra foi escolhida para representar um livro de capa azul. 

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O livro conta com bastante documentos e fotos interessantes.

Para mais informações sobre a maratona literária clique abaixo: 

https://juorosco.blog/2018/01/17/maratona-literaria/

A cantora Fortuna é uma das maiores interpretes e pesquisadora do cancioneiro sefardita, que incluem os judeus portugueses: 

Como material de apoio utilizei as seguintes obras:

Bethencourt, Franciso. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália- Séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras.

Tese de doutorado pela USP de Fernando Gil Portela Vieira. Os Calaças: Quatro gerações de uma família de cristãos-novos na Inquisição (séculos XVII – XVIII). file:///C:/Users/Juliane/Downloads/2015_FernandoGilPortelaVieira_VOrig.pdf

Museo del Prado: https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/le-pusieron-mordaza-por-que-hablaba-y-le-dieron/64eb1998-c053-425f-86ca-f06443b19246?searchid=e8844416-7e17-7ee6-eac5-173c0100671e

Fotos das judiarias: Google Images.

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2 comentários sobre “Resenha livro: Das Fogueiras da Inquisição às Terras do Brasil – Joseph Eskenazi Perniji

  1. Interessante porque o livro traz como análise que a perseguição ao povo judeu sempre fez com eles, ao procurar novas Terras, novos locais, acabassem levando a esses locais sua cultura , ou seja o tiro foi saindo pela culatra, pois quanto mais aumentava o antissemitismo, mais aumentava a divulgação da cultura judaica pelo mundo, hoje é inegável a influência dos judeus nos costumes da parte ocidental e muito do avanço tecnológico, cultural e social vem da tradição judaica, uma ironia para aqueles que costumam propagar ódios, pois ao tentar explicitar seus rancores, permitiu que houvesse a expansão da semente da cultura judaica mundo afora, isto dentro de uma visão histórica dos fatos, já dentro de parâmetros espirituais, parece ocorrer uma força que aproveita o lado negativo para ocasionar um destino, o qual não temos alternativa senão aceitar, guardando os devidos limites de que toda cultura traz o positivo e o negativo, até como a própria dicotomia humana nos submete como herança !

    Curtido por 1 pessoa

    • É verdade, ao propagar o antissemitismo o tiro saía pela culatra. Como avaliou muito bem o sultão otomano: “A Espanha enriquecerá o meu Império”. E a cultura judaica ia se espalhando bem como a influencia dela. Obrigada por comentar!! Abçs!

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