Resenha livro: O fim do homem soviético – Svetlana Aleksiévitch

Imagina você vivendo em um mundo que acaba da noite para o dia. Os códigos sociais, moeda, valores éticos e morais deixam de existir.

Um país que acreditava em uma sociedade regida por guerras, valores patrióticos e cooperação mútua entre as pessoas, onde tudo era regido pelo Estado. Essa foi a realidade do fim da União Soviética. 

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Os hospitais psiquiátricos ficaram lotados de pessoas de todo o tipo, que não se conformavam com a queda do comunismo e não compreendiam o novo mundo.

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Trabalhadores derrubam estátua gigantesca de Lênin em Zaporizhia, na Ucrânia. Foto: Prylepa Oleksandr.

O povo soviético do dia para noite viu ser introduzido em seu mundo, ideias como: livre mercado, lucro e empresa privada. Coisas que eles tinham uma vaga ideia do que eram.

Ao mesmo tempo começaram a emergir pessoas com uma mentalidade capitalista da pior versão, os chamados mafiosos. Gente que antes estava cantando “viva a revolução” no dia seguinte, após a queda do sistema, estava roubando parentes e vizinhos.

Uma entrevistada disse que sua professora era extremamente rígida com os preceitos soviéticos, não permitia nenhum questionamento a respeito da Revolução Russa. No mês seguinte, após a queda do socialismo, foi embora para os Estados Unidos feliz da vida.

Teve uma mulher, na época da queda do comunismo era uma jovem órfã, foi enganada por um parente e acabou perdendo o apartamento onde morava e passou a viver como mendiga nas ruas, no inverno moscovita. Outra senhora foi parar em uma casa velha no interior da Rússia, após também ser ludibriada por um amigo.

As pessoas perderam seus empregos, não havia dinheiro para comprar comida, tudo se transformou em um caos. Via-se veteranos da Segunda Guerra Mundial (extremamente valorizados socialmente) pedindo esmolas. Crianças que outrora sonhavam em entrar em algum komsomol (organização juvenil do Partido Comunista) estavam nas ruas, fazendo malabarismos em troca de comida.

A maioria dos soviéticos começaram a questionar os benefícios e os malefícios da Revolução Russa.

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Filas para comprar alimentos eram recorrentes. Na foto um mercado da Lituânia, então URSS.

Stálin aparece em praticamente todas as entrevistas. Alguns disseram que ele foi imprescindível para a URSS ganhar a guerra, outros discordam.

Os gulags (prisões soviéticas) passaram a ser tema de discussões. Um entrevistado disse: “É errado culparmos somente Stálin, visto que as pessoas iam para os gulags, após denúncias de vizinhos e parentes. Quem denunciava era tão culpado, quanto o stalinismo. ”

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Foto de gulag.

Outro entrevistado disse: “Stálin pegou a Rússia no arado e deixou na bomba atômica”.

Uma senhora entrevistada era criança no período stalinista. Sua mãe foi condenada a trabalhos forçados em um gulag. Como ela era órfã de pai, com apenas 3 anos ela ficou presa com a mãe. Seu maior medo era fazer 5 anos e ir para algum orfanato, o que acabou acontecendo.

“Lembro que as mães choravam sempre, mas as crianças não choravam nunca. Não tínhamos caprichos nem mimos. Não ríamos. Eu aprendi a chorar quando já estava no orfanato. Nós apanhávamos muito no orfanato. Falavam para nós: Nós podemos bater em vocês, podemos até matar vocês, porque as suas mães são inimigas”.  

Os soviéticos eram preparados desde pequenos para a guerra, tanto para atuarem como militares, como para aguentarem privações. Alguns sonhavam com conflitos e se lamentam que a União Soviética não entrou em guerra diretamente contra os Estados Unidos. Na opinião deles, se isso tivesse acontecido o comunismo não teria acabado.

Muitos se lamentavam de terem sacrificado suas vidas na Segunda Guerra Mundial e depois o ideal comunista ter acabado.

Um veterano da guerra do Afeganistão descreve o treinamento do exército soviético. Ficavam semanas dormindo apenas 2 horas por noite, eram espancados por qualquer motivo e comida era apenas um resto jogado ao chão. Quando os jovens (homens e mulheres) partiam para o serviço militar, eram lhes retiradas as facas e os garfos para evitar o suicídio. Mesmo assim, tinha gente que conseguia.

Em um dia todos são soviéticos, na semana seguinte passaram a ser: russos, ucranianos, cazaques, georgianos, armênios, ortodoxos, católicos, judeus, mulçumanos etc.  

Após a queda do regime, os russos começaram a ser assassinados nos países satélites. Em países de maioria mulçumana como o Cazaquistão, os armênios eram eliminados por serem cristãos.

Dessa forma, a vingança veio do outro lado, os russos começaram a executar os muçulmanos. O problema com a independência da Tchetchênia se arrasta até hoje.

Uma jovem entrevistada é sobrevivente de um atentado no metrô de Moscou, em que um tchetcheno se explodiu. O discurso de sua mãe é bem reflexivo, ela tenta entender as causas que levaram à vários atentados. Mas, para a moça o assunto é ainda muito complicado.

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Mais de 38 pessoas morreram e outras 60 ficaram feridas em atentados perpetrados por duas mulheres-bomba em estações centrais do metrô de Moscou. 2013.

O livro tem uma escrita bem tranquila, facilitando a leitura. No entanto, os relatos são muito pesados, por isso, demorei um pouco para terminar. Tem momentos em que eu precisei dar um tempo na obra. Eu sou acostumada com livros e filmes deprimentes, então, vocês podem fazer ideia do conteúdo. 

Svetlana deu voz para todos os grupos: pessoas que adoravam a União Soviética, os que odiavam, muçulmanos que trabalham em Moscou, judeus, armênios, veteranos e veteranas tanto da Segunda Guerra, quanto do Afeganistão, até russos que emigraram para os Estados Unidos. Homens, mulheres e adolescentes, ninguém ficou de fora.

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Gorbachev capa da Time.

Uma excelente obra para compreendermos um pouco de um período tão complicado da História.

O fim do homem soviético foi o livro escolhido da maratona literária para representar “um livro de uma autora”.

https://juorosco.blog/2018/01/17/maratona-literaria/

Notícia do fim da União Soviética em 1991:

Resenha Stálin – O Tirano Vermelho:

https://juorosco.blog/2017/10/31/resenha-doc-josef-stalin-o-tirano-vermelho-tv-france-international/

 

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Um comentário sobre “Resenha livro: O fim do homem soviético – Svetlana Aleksiévitch

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