Resenha filme: Cekmeceler (Drawers) – Caner Alper, Mehmet Binay

Çekmeceler (Drawers) é um filme turco de produção independente. Foi exibido pela primeira vez na Turquia, em 2015, em 08 de março, como homenagem ao Dia Internacional das Mulheres.

O longa-metragem é baseado em uma história real e discute temas como: Moralidade, machismo, honra, violência doméstica e regras sociais. Adianto que é uma narrativa pesada.

Na primeira cena conhecemos a protagonista Deniz. Ela aparece toda machucada a caminho do hospital. No local, a mãe da jovem – Saadet recebe a notícia dos médicos: A moça foi estuprada.

O cabelo de medusa
Ece Dizdar como Deniz. Os cabelos da personagem fazem referência à Medusa.

 A partir desse trauma, Deniz terá que olhar para as “gavetas” do seu passado e revelar as feridas, que não podem ser tratadas com o silêncio.

Nesse momento, vamos conhecendo o passado da moça turca. Filha de atores, Deniz foi criada no camarim de teatros.

Ayran, pai da jovem, sempre se esforçou para que a menina não se tornasse uma “vadia” como a mãe.

Ele se dedicou a reprimir sexualmente a filha a todo  custo. Ele a observava dormindo e se ela fizesse algum movimento “estranho” apanhava.

Ayran também “checava” as calcinhas usadas da garota para ver se não estavam “alteradas”. 

Ainda faz aquilo
Ayran (Taner Birsel) se dedicou a reprimir sexualmente sua filha. 

A narrativa faz muitas referências ao mito grego da Medusa. Conta a história que Medusa era uma donzela (mortal) sacerdotisa do templo de Atena. Ela fazia parte de um grupo de mulheres virgens, que auxiliavam a deusa no templo. Todas tinham que ser castas, visto que Atena assim determinava.

Um dia, Poseidon (deus dos mares) viu a Medusa e se apaixonou. Assim, ele decidiu violenta-la. Como punição por ter profanado o templo, Atena transforma os cabelos de Medusa em serpentes venenosas, castigo que acaba desfigurando o rosto da sacerdotisa.

Deniz desenhando a Medusa
Denis desenhando a Medusa.

Para Freud, o mito da Medusa diz respeito ao complexo de castração infantil. Ayran beirou a loucura a fim de castrar a filha.

Deniz se torna adulta e a repressão, a que foi submetida pelo pai, tem efeito reverso. Pois, a jovem se torna obcecada por sexo.

Em alguns momentos, o filme me lembrou Ninfomaníaca de Lars von Trier, principalmente no quesito compulsão sexual. Em ambos os filmes, as cenas de sexo têm pouco teor erótico.

Em um momento, Deniz acaba levantando a saia e oferecendo sexo para os carros que estão passando.

A protagonista vai ao ginecologista e precisa ficar 3 semanas sem relações sexuais por conta de um tratamento. Ela sai do consultório e marca de ir à casa de um rapaz. Nessa mesma noite, a jovem sai com vários parceiros.

Festa Deniz

Ela sente um desespero por sexo e atenção, apresentando muitas das vezes comportamentos infantis.

A Psicanálise nos mostrou que uma das fontes dos sofrimentos psíquicos, causa de doenças e perturbações, é o rigor familiar excessivo e a moralidade rígida, que produz valores sociais irrealizáveis.

Quando Deniz (de maneira inconsciente) percebeu que não teria como satisfazer as exigências paternas, decidiu transgredi-las de maneira violenta contra si mesmo, através de relações sexuais desprotegidas, que envolviam bebidas e drogas.

Segundo o filósofo Baruch Espinosa, “somos livres quando somos uma potência interna para a pluralidade simultânea de afetos, ideias e ações que decorrem de nosso próprio ser e dos quais a única causa”.

Çekmeceler discute também a questão da violência doméstica, pois além de oprimir e castigar a filha, Ayran bate na esposa – Aise.

abra porta

Ademais, é interessante observarmos como Saadet (mãe de Deniz) ensina a filha a lidar com a repressão paterna: “como se fosse tudo uma grande peça”.  No fundo, ela não vê possibilidades de lutar contra o machismo e moralismo do ex-marido. Ela enxerga as mulheres como impotentes.

Por toda a complexidade da narrativa, as representações dos atores e a filmagem o longa-metragem vale muito a pena ser conferido. A trilha sonora inclui bossa-nova. 

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