Resenha filme: Corra! (Get out) – Jordan Peele

No final da página há spoilers.

Corra é um filme excepcional!! Um suspense que me prendeu do início ao fim. Mas, não fica só nisso. Seu objetivo é tecer uma crítica social em relação ao racismo, principalmente, quando acontece de maneira velada.

Jordan Peele levanta estatueta do Oscar 2018 por Melhor Roteiro Original (Foto: Lucas Jackson/Reuters)

Jordan Peele é o primeiro afro-americano a ganhar o Oscar de melhor roteiro original. 

Quando o filme terminou eu fiquei sem reação, completamente boquiaberta. A narrativa parece simples em um primeiro momento, mas não se enganem, a história tem várias nuances.

Chris é um fotógrafo artístico, afro-americano, órfão de pai e mãe. Namora com Rose – uma jovem de classe média alta e branca.

O casal irá viajar para o interior para conhecer os pais da moça, cuja mãe é psiquiatra e o pai neurologista. A pergunta do rapaz tranca a garganta: “Seus pais sabem que sou negro?” Rose responde com tranquilidade, dizendo que não, porque não tem importância, pois eles não são racistas.

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Daniel Kaluuya como Chris e Allison Williams como Rose. As atuações foram excelentes. 

No meio do caminho, uma cena chama a atenção: Rose atropela um cervo. Chris demonstra preocupação, porém sua namorada fica indiferente.

Um policial chega e pede a carteira de motorista ao rapaz, sendo que não era ele o motorista. Rose demonstra contrariedade, por se tratar obviamente de um caso racismo.

Quando o casal chega à casa dos pais de Rose vemos uma típica família de classe média alta estaduniense. O jardineiro é afro-americano e tem expressões estranhas, assim como a governanta.

Os sogros de Chris são simpáticos demais. Tem fotos do atleta Jesse Owens (atleta que venceu a Olimpíada de 1936, na corrida dos 100m em Berlim, na Alemanha nazista).

O pai justifica ao genro os empregados negros, dizendo que foram contratados para cuidar do sogro idoso, mas que todos se afeiçoaram aos funcionários e eles acabaram sendo contratados em outras funções.

Segundo a Psicanálise quando alguém se esforça demais para negar algo constitui um mecanismo de defesa. De maneira inconsciente está tentando esconder a realidade, inclusive de si mesma. Essa postura já nos deixa com a pulga atrás da orelha

Chris começa a desconfiar de que há algo errado com os dois empregados negros. São submissos demais, mas não temos como saber o que acontece.

Família Armitage

O pai de Rose é rápido em justificar a presença dos empregados negros. 

Durante o dia vemos demonstrações de racismo velado em uma festa para os amigos dos pais de Rose.

Chris não é tratado como uma pessoa comum, mas como um outro. Fica nítido a diferença que fazem, mesmo quando estão tentando ser simpáticos. 

Primeiro, um senhor faz um comentário sobre prática esportiva. Reafirmando o estereótipo de que todo o negro é bom em esportes. Depois aparece uma senhora casada com um rapaz afro-americano muito esquisito. Ela começa a apalpar Chris como se ele fosse um objeto sexual.

O pior estava por vir. Uma pessoa solta a seguinte pérola: “Negro está na moda, não é?

Temos três questões: A primeira a objetificação e sexualização do corpo negro. Outro ponto: A crença de que o negro só é competente nos esportes, e o pior, a suposta “moda” do negro, como se fosse algo exótico, em que os brancos podem se “fantasiar” de negros.

O ambiente é hostil em relação a Chris, mas todos mantém um sorrisinho, tentando disfarçar o estranhamento.

Chris é tratado como um diferente em meio aos amigos dos sogros. 

A intuição do rapaz diz a ele: “saia daqui, vá embora”. Mas, ele fica…..E quantas vezes aquela voz na nossa mente gritou: “Tem coisa errada!” E mesmo assim, nós ficamos….Quem nunca?

Imagem relacionada

Jordan Peele dirigiu o filme de maneira que o suspense segue toda a trama. Os cortes são rápidos para provocar sustos. 

Se você ainda não assistiu dê uma chance a esse filme, valerá a pena!

Análise com spoilers!

 

Foto quebra de página

 

A hipnose e a lobotomia são metáforas que Jordan Peele utilizou para discutir algo muito sério: Para dominar uma pessoa ou grupo é preciso fazê-lo acreditar em sua inferioridade. Então, ao longo de séculos foi  construído uma ideologia perversa em que o negro foi colocado como inferior.

Assim, como o algodão nos ouvidos de Chris significa sua força psicológica e resiliência.

Daniel Kaluuya stars in Get Out

Não quero esvaziar a discussão racial que o filme traz. Mas, o longa-metragem me trouxe também outras reflexões.

Podemos transpor a metáfora da hipnose para várias questões que vivemos no Brasil. Nós agimos com passividade em situações que não deveríamos. 

Quantas vezes reproduzimos discursos que vão contra nós mesmos? Ideias que foram batidas milhões de vezes e não questionamos a veracidade delas. 

Só com muita “lobotomia” e “anestesiamentos” coletivos para aceitarmos a precariedade que temos nos serviços de saúde e educação públicos. Quantas pessoas morrem nas filas de hospitais? Quantas crianças saem do ensino médio sem saber as quatro operações básicas da matemática?

Sem falar em práticas de preços abusivos e impostos altíssimos por retornos tão ruins. Por que nos conformamos com coisas tão ruins? Por que protestamos contra uma coisa e outras simplesmente ignoramos?

Fica aqui somente algumas reflexões, que o filme trouxe. Uma narrativa interessantíssima e que precisamos compreender. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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12 comentários sobre “Resenha filme: Corra! (Get out) – Jordan Peele

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