Resenha filme: Hannah Arendt – Margarethe von Trotta

O post de hoje, dia 08 de março, não poderia ser sobre outra pessoa, senão Hannah Arendt. Uma das maiores filósofas do século XX. Seus pensamentos continuam atuais.

Os trabalhos da autora versam sobre direitos humanos, genocídios, regimes totalitários e condições de trabalho.

Hannah Arendt nasceu em Hannover, na Alemanha, em 14 de outubro de 1906. A filósofa é proveniente de uma família judaica, de classe média e membros do Partido Social Democrático.

Hannah Arendt jovem 1
Hannah Arendt. 

Em 1933, Hannah e seu primeiro marido fogem da Alemanha, por conta do nazismo e vão para a França, onde são capturados e ficam em um campo de concentração. Posteriormente, conseguem fugir para os Estados Unidos.

Após anos da sua fuga a pensadora tornou-se apátrida, ou seja, sem nacionalidade. Esse fato de sua vida influenciará muito suas reflexões, principalmente, em temas como direitos humanos.

Em 1951, Hannah Arendt publica “Origens do Totalitarismo” obra considerada uma das mais importantes do século XX.

Arendt velha
Hannah Arendt. 

O filme de Margarethe von Trotta foca em um momento da vida da filósofa. Em 1961, Hannah Arendt foi enviada à Jerusalém a fim de cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann. Essa experiência resultará no livro Eichmann em Jerusalém. O caso amoroso que a filósofa teve com Martin Heidegger – seu professor aparecerá através de flashbacks.

HannahArendt no filme
Barbara Sukowa como Hannah Arendt. 

 Depois de muita investigação o Mossad (centro de espionagem israelense) consegue capturar Adolf Eichmann na Argentina e leva-lo para ser julgado em Israel. O referido nazista foi responsável por toda a logística dos prisioneiros para os campos de concentração.

Como todos, Hannah Arendt esperava encontrar em Jerusalém um monstro e se deparou com uma pessoa medíocre, que dizia ter cumprido ordens, interessado em subir na carreira.

adolf-eichmann-750x410
Imagem do julgamento de Eichmann. 

O filme mostra a filósofa discutindo com amigos judeus e defendendo sua tese, cujo ponto principal consiste em que os seres humanos podem realizar ações inimagináveis, sem qualquer motivação perversa.

O mal foi pensado por Hannah Arendt nas sociedades secularizadas sem apelar pela noção dualista de bem versus mal e nem de pecado, contida na cultura judaico-cristã.

As ações de Eichmann caracterizaram-se pela ausência de pensamento. A partir da banalização do mal o indivíduo submete-se completamente à uma lógica social, que faz com que ele não perceba suas responsabilidades nos atos em que pratica.

O sujeito que pratica o mal banal renuncia à capacidade humana de reflexão, repetindo o tempo inteiro o mesmo comportamento, além de um discurso padrão.

Esse tipo de mal tem espaço em sociedades massificadas, nas quais, o indivíduo tem pouquíssimos poderes de escolhas, tornando-se solitários, submissos e condicionados.

As pessoas passam a viver exclusivamente como trabalhadores. São humanos praticamente adestrados como os cães de Pavlov.

O filme mostra o preço que Hannah Arendt pagou por sua honestidade em desenvolver seu livre pensamento, sem se preocupar com as consequências.

Eichmman burocrata
Hannah Arendt é representada como uma pessoa forte. 

A partir da publicação do seu artigo sobre o julgamento de Eichmann e a explanação de que se tratava de uma pessoa medíocre, reduzida à condição de executor. Dessa forma, a filósofa angariou inimigos diversos e muito ódio.

Para completar, Hannah Arendt responsabilizou as lideranças judaicas pela quantidade de judeus assassinados. 

Porém, em nenhum momento ela tece juízo de valor sobre as pessoas, apenas, analisa a fim de compreender.

O filme mostra Hannah Arendt recebendo diversas cartas com ameaças de morte e xingamentos diversos. O serviço secreto israelense chegou a ameaça-la, porém, em nenhum momento ela se intimidou. O apoio que ela recebeu partiu somente do seu marido e de sua melhor amiga.

A filósofa foi achincalhada por intelectuais e pelo público em geral, que a julgaram como nazista, judia antissemita, arrogante e sem sentimentos. Ela já havia sido duramente criticada por suas considerações sobre o stalinismo feitas em “Origens do totalitarismo”, em que o regime soviético é considerado um totalitarismo de esquerda e o nazi-fascismo um totalitarismo de direita.

Margarethe von Trotta optou por mostrar imagens reais do julgamento de Eichmann para que compreendamos o que Hannah Arendt viu.

O filme nos dá a dimensão da coragem que a pensadora demonstrou em expor suas teses, mesmo sabendo que isso teria um preço.

Fica a dica para vocês de um longa excelente, com representações muito boas e fidedignas, que nos traz reflexões importantíssimas.

Anúncios

7 comentários

  1. O pensamento dela realmente é muito atual, e pelo que parece vai continuar assim por um bom tempo. Sobre o julgamento de Eichmann eu vi um filme que trata dos bastidores da transmissão de seu julgamento: The Eichmann Show. Vale a pena.
    Gostei muito do seu texto.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Poxa legal a resenha. Pecou na foto de Hitler com a legenda “Totalitarismo de Direita”. O nazismo é um viés que “ninguém” quer ser, tem estudiosos que dizem ser uma terceira via, exemplo: para derrota-los se juntaram COMUNISTAS, LIBERTÁRIOS, Democratas, Monarcas etc. Corrija isso. Grato.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Franco, Totalitarismo de extrema direita, ou com viés de direita foi um termo cunhado pela Hannah Arendt no livro Origens do Totalitarismo, em que ela contrapõe o nazismo, com o stalinismo – totalitarismo de esquerda. Abraços.

      Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s