Resenha filme: O homem de Kiev (The Fixer) – John Frankenheimer

O homem de Kiev é um filme produzido em 1968, baseado no livro “The Fixer” de Bernard Malamud, ganhador do prêmio Pulitzer e National Book Award em 1967.

A narrativa é baseada em uma história real e aborda temas como: injustiça, antissemitismo e a construção de “bodes expiatórios”.

O mundo aonde a história acontece é a Ucrânia, na época parte da Rússia czarista, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e Revolução Bolchevique (1917).

O filme começa com o personagem Iakov Bok raspando sua barba e cortando os cabelos. O objetivo não tem nada a ver com estética, mas com o desejo de deixar de aparentar o fato de ser judeu.

Homem de kiev sem a identidade judaica

Desfazer da identidade judaica era um preceito de sobrevivência. Alan Bates como Iakov. 

Na cena seguinte, vemos um pogrom acontecendo. Cavaleiros correm aterrorizando uma população flagelada, que vive em shetl (aldeia judaica).

Centúrias Negras

Os Centúrias Negras aterrorizam a população judaica. 

Os perseguidores fazem parte das Centúrias Negras, grupo paramilitar organizado após a Revolução de 1905. Era um grupo de extrema-direita e extremamente antissemita.

Centurias negras

Passeata dos Centúrias Negras. Grupo foi liquidado pelo Exército Bolchevique na Revolução Russa. 

Iakov Bok, após sobreviver ao pogrom, sai do shetl e vai para Kiev, o que era proibido por lei, pois os judeus não podiam circular fora de suas aldeias e guetos.

Em uma rua, Iakov encontra um senhor ao chão no meio da neve. O rapaz salva esse cidadão, que ele descobre pertencer aos Centúrias Negras.

Esse senhor (sem saber que seu salvador é judeu) oferece-lhe um emprego e uma casa.

Iakov passa a trabalhar em uma olaria, sendo o único judeu da vizinhança. Em um dia um menino ucraniano foi encontrado assassinado em uma gruta, perto do trabalho do rapaz.

A polícia chegou até aos possíveis assassinos, mas os Centúrias Negras com uma manobra judicial conseguiram condenar o rapaz por crime ritual. Eles acreditavam que o pão feito na Páscoa judaica continha o sangue da criança.

Iakov ajuda um judeu ortodoxo

O fato de Iakov ter abrigado um judeu, que havia sido apedrejado, depôs contra ele. 

A partir disso, teve início um verdadeiro calvário para Iakov. Ele ficou preso por três anos sem julgamento, sendo torturado praticamente todos os dias.

Prisão

Através de portas vemos Iakov como prisioneiro. 

O filme passa praticamente todo o tempo em uma cela, aonde vemos todo o suplício do jovem.

Representação de uma prisão ucraniana

Representação da prisão ucraniana. 

Iakov não tinha instrução formal, nem era politizado, mas procurava estudar a obra do filósofo Baruch Spinosa.

Por conhecer a obra de um pensador ateu de origem judaica, o rapaz foi considerado também subversivo.

O caso chamou a atenção do mundo ocidental e também da população russa, que enxergou o verdadeiro motivo da prisão de Iakov: antissemitismo.

Aos poucos, Iakov percebe que não poderia viver em um mundo sendo apolítico. No começo, o jovem era uma pessoa que somente procurava a sobrevivência, mas essa lhe sendo negada, ele começa a se engajar politicamente.

O filme é muito bem feito, principalmente se levarmos em consideração a época em que foi produzido – 1968. A atuação de Alan Bates como Iakov foi muito bem feita. É uma adaptação difícil de fazer, pois praticamente toda a história acontece dentro de uma cela.

Eu fiquei com muita vontade de ler o livro, para me aprofundar mais na história do protagonista.

Iakov Bok foi inspirado na história real de Mendel Beilis, que foi perseguido pela justiça czarista, pelo simples fato de ser judeu. Importante salientar que a prisão de Mendel não foi um erro da justiça, mas houve uma conspiração para condenar o rapaz.

Os judeus como etnia foram eleitos bodes expiatórios ideais em vários contextos.

Para esvaziar a Revolução de Outubro, o czar Nicolau II mandou confeccionar os Protocolos dos Sábios de Sião, cuja principal mensagem era que havia uma conspiração mundial judaica para dominar o mundo. Várias vezes esse documento teve a comprovação de que é fraudulento.

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Mulheres e crianças no shetl de  Czortkow, Ucrãnia. Os judeus foram os “bodes expiatórios” ideais e vários contextos. 

Semelhante ao caso de Mendel Beilis, foi do também judeu Alfred Dreyfuss (1897) – acusado de espionagem em favor da Alemanha pela justiça francesa. O rapaz foi condenado à prisão na Ilha do Diabo (Guiana Francesa) a partir de várias provas falsas. Posteriormente, foi provado que havia sido condenado por ser judeu.  Sua inocência ficou comprovada em 1905.

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Alfred Dreyfuss. 

 

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