Resenha série: O Mecanismo –José Padilha, Felipe e Marcos Prado

“Não tem partido. Não tem ideologia.

O Mecanismo está em tudo. ”

Na minha opinião por trás do mecanismo está o homem cordial (conceito do Sérgio Buarque de Holanda), pessoas que acreditam que o Estado é dele e não separa o público do privado. 

O Mecanismo é uma série brasileira da Netflix, que narra os bastidores da Operação Lava-Jato. A história é baseada no livro homônimo de Vladmir Neto.

O protagonista é o investigador da Polícia Federal – Ruffo, inspirado em um policial aposentado chamado Gerson Machado.

Selton Melo
Selton Mello como Ruffo, um policial obcecado em prender Ibrahin.

Tudo começa com sua obsessão em prender o doleiro Ibrahin (Youssef na realidade). Ele passa 20 anos na polícia, tentando pegá-lo, uma rixa que vem desde os tempos escolares.

Ibrahin carismático
Enrique Diaz como Ibrahin – o “câncer”. Um personagem extremamente carismático, que corre o risco de nos identificarmos com ele.

Ibrahin era um adolescente delinquente, depois partiu para vender muamba e acabou lavando dinheiro para políticos e empreiteiras.

Ruffo é um personagem complexo, tem compulsão por prender o doleiro e apresenta quadros de depressão bipolar. É casado e tem uma filha autista. Leva uma vida modesta em contraposição a Ibrahin que nunca estudou, mas tem uma existência com todo o conforto e riqueza.

Depois de um acontecimento complicado, a policial Verena Cardoni – personagem inspirado na delegada Erika Mialik Marena, assume a investigação. Ela herda de seu antecessor a vontade e persistência de prender Ibrahin. Até então, Ruffo e Verena não tinham a dimensão do rumo que suas investigações tomariam.

Verena
Carol Abras como Verena.

Conforme a operação avança, a policial, com uma equipe de apenas duas pessoas, consegue chegar a um escritório do Ibrahin, que ficava em cima de um lava-jato e lavava dinheiro para as 13 maiores empreiteiras do país e também financiava a campanha de Janete Ruscov (inspirada em Dilma Roussef).

Equipe de duas pessoas..png

No início, somente duas pessoas na Operação Lava-Jato.

Quando Verena puxa o fio, o que ela descobre é estarrecedor. Ibrahin é café pequeno perto da corrupção que estava por detrás. O “mecanismo” estava presente em várias esferas e circulava entre os três maiores partidos brasileiros (PMDB, PSDB e PT).

Luxo bancado com corrupção
Luxo bancando com o dinheiro público.

O juiz Rigo (Sérgio Moro) compreende o tamanho da operação e começa a dar as cartas para a prisão, primeiramente dos doleiros e posteriormente, autorizando a prisão do diretor da Petrobrasil (Petrobrás) – João Paulo Rangel (inspirado em Paulo Roberto Costa – diretor de abastecimento da Petrobrás).

 

Com a reeleição de Janete Ruscov (Dilma), que se negou a barrar a Lava-Jato, a operação tomou fôlego. Se o candidato da oposição – Lúcio (Aécio Neves) tivesse vencido, as investigações teriam sido derrubadas.

Dilma é representada como uma pessoa teimosa, que se nega a ouvir as sugestões de Lula, na série – João Higino, para quebrar a Operação Lava-Jato. A narrativa mostra nas entrelinhas que um impeachment acontecerá em decorrência disso, uma conspiração para acabar com as investigações.

Nunca na história do país empresários e políticos foram presos e isso causou desespero na cúpula da elite política e empresarial.

A Polícia Federal consegue prender 12 dos 13 donos das empreiteiras, faltando apenas o maior deles Ricardo Brecht (Marcelo Odebrecht), que acreditava que seu esquema era tão perfeito, que jamais seria pego.

cartel das 13 maiores empreteiras
Representação do cartel das 13 maiores empreiteiras do país.

Os nomes foram trocados, pois para utilizar os verdadeiros o roteiro deveria receber aprovação da Polícia Federal. João Padilha e a equipe não quiseram correr o risco de interferências.

Como em Tropa de Elite 1 e 2 e Narcos, Mecanismo conta com a narração em off, no caso de Ruffo e posteriormente, Verena, deixando a história bem didática. Acredito que o objetivo tenha sido explicar o que foi a Lava-Jato.

A narrativa retirou o protagonismo que a mídia colocou em cima do juiz Sérgio Moro e mostrou que tudo foi possível graças a equipe da Polícia Federal. O juiz é representado como uma figura muito séria e corajosa, porém, bastante vaidosa.

A mídia criou uma idolatria em torno do juiz Sérgio Moro.

 

A revista Veja, na série “Leia”, é representada como um veículo extremamente parcial, assim como toda a imprensa.

 

Aécio Neves (Lúcio) aparece como aproveitador e político corrupto, alguém que teria barrado a Lava-Jato se pudesse.

Lúcio Lemes malandro
Representação de Aécio Neves.

Lula (João Higino) nos é apresentado como um político populista e demagogo, seu discurso prima pelo fim da pobreza, porém, ele é conivente com a corrupção, justamente, a maior causa da extrema desigualdade social. Na verdade, o Lula é o “homem cordial” do Sérgio Buarque de Holanda. 

A produção da série tentou o tempo inteiro ser imparcial e acredito que eles conseguiram na maioria das cenas. A maneira como as coisas foram mostradas retirou a imagem de injustiçado que muitos políticos colocam em si mesmos. Lembrando que o “mecanismo” está em tudo e é ele quem ferra com o país. 

A série é contada do ponto de vista de dois policiais federais, portanto, a representação dos políticos é mostrada a partir do olhar deles e não dos militantes de partidos políticos.  

Particularmente, gostei muito da série. Com os cortes rápidos, ela nos deixa sempre com vontade de ver os próximos episódios. Também, achei a didática muito boa e necessária ao público brasileiro e estrangeiro, que muitas vezes não compreende como funcionam os bastidores.

Sugiro que vocês deem uma lida na resenha “Raízes do Brasil” do Sérgio Buarque de Holanda, pois o mecanismo não tem vida própria, mas foi criado pelo “homem cordial”. 

Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda:

https://juorosco.blog/2017/08/25/resenha-livro-raizes-do-brasil-sergio-buarque-de-holanda/

“Um dos desdobramentos da cordialidade é o Estado patrimonialista, em que o interesse particular se sobrepõe ao coletivo. Por exemplo, o prefeito faz uma obra desnecessária na cidade, para beneficiar a empreiteira do amigo e ganhar uma comissão por fora.”

“O que fode o nosso país não é a falta de educação, não é o sistema de saúde falido, déficit público e taxa de juro. O que fode o nosso país é causa de tudo isso…..O Mecanismo.”

 

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9 comentários

  1. Gostei de seu ponto de vista , sem a paixão dos que são filiados ou simpáticos a algum partido, ou nome pessoal, se houve a falha da historia ao se colocar na boca do personagem Lula, algo que foi dito pelo Jucá, todavia os que criticam esta falha não falam do acerto da personagem Dilma em permitir o prosseguimento das investigações e também do esforço do personagem Aécio Neves em ser contrário a mesma investigação, eu diria que numa análise por graduação a série traz uns 80% de acertos dos fatos históricos, mas dá para aceita-los já que a própria mídia formal que não poderia ser parcial o é descaradamente e incita a análise para uma unilateralidade, que também serve para protegê-los das investigações achegarem até a eles também !

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Sidney, eu concordo com você, a série trouxe mais acertos do que erros e devemos levar em consideração que os personagens são inspirações. A Lava-Jato só foi possível, porque a Dilma deixou e isso ficou bem nítido na série. Abçs!

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