Resenha doc.: Keep Quiet (Fique Quieto) – Joseph Martin, Sam Blair

“Quando você cria uma história, que é baseada em uma mentira sobre quem é você ou quem é sua família, mais cedo ou mais tarde a verdade aparecerá.”

Keep Quiet é um documentário que narra a história do húngaro Csanad Szegedi, cofundador do partido de extrema direita húngara, chamado Jobbik. Posterior, à algumas reviravoltas em sua vida, ele se tornou judeu ortodoxo.

keep quiet - casad szegedi

Em 2006, depois de o fracasso do governo de esquerda, a Hungria entrou em uma profunda recessão política e econômica. O desemprego era alto, a segurança pública estava colapsada e o ódio tomou a população.  

Com um país em frangalhos, a história alemã pré-nazismo estava se repetindo em Budapeste; logo os “bode-expiatórios” foram eleitos: judeus e imigrantes. O discurso antissemita era o mais forte.

Keep quiet - fracasso da esquerda

Budapeste se tornou um barril de pólvora.

O povo tomou as ruas da capital húngara e o país quase entrou em uma guerra civil. Houve pancadarias e muito vandalismo. 

Nesse contexto, foi fundado um partido de extrema-direita chamado Jobbik, que se destinava a “moralizar” a Hungria. A situação chegou a tal ponto, que o Jobbik criou uma guarda do partido, algo parecido com SS nazista.

Keep quiet - guarda

Guarda do Jobbik é parecida com SS nazista.

Nesse contexto, Csanad Szegedi estava na vice-presidência do partido. Ele não media as palavras para atacar os judeus. Seu maior ódio era a importância dada ao Holocausto pela população européia e historiadores em geral. O rapaz era contra o ensino do Holocausto nas escolas húngaras. Seu argumento era que todo mundo sofreu. Por que a importância dada aos judeus? (Típico discurso antissemita). 

Memorial dos judeus mortos - Keep Quiet

Memorial no rio Danúbio em homenagem aos judeus assassinados pelo nazismo no rio. Os antissemitas colocam pés de porco nos sapatos.

Um dia, Csanad chega em casa e conta a seguinte piada para sua mãe: – “Hitler perguntou à uma criança judia, o que ela queria ser quando crescesse. Ela respondeu: Médico. Hitler disse: Não! Sabão ou abajur? ”

Para o rapaz essa era uma piada normal, todo mundo a contava e achava graça. Mas, uma coisa ele não entendeu: Sua mãe ao ouvir a piada entrou no quarto e chorou.

Um dia, Csanad recebeu uma ligação de uma pessoa do Jobbik. O que ele ouviu causou-lhe uma devastação: Csanad, você é judeu!

Ele não acreditou. Ao questionar sua avó, ela lhe mostrou a tatuagem do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. A senhora era uma sobrevivente do Holocausto.

Avó de Szegedi

A avós de Csanad era sobrevivente do Holocausto.

Quando Auschwitz foi libertado pelos soviéticos, a avó de Csanad voltou para a Hungria e decidiu nunca comentar sua experiência. Temendo sofrer com o antissemitismo no país, ela usava roupas com mangas cumpridas para ocultar a prova de que era sobrevivente do genocídio. 

O mundo de Csanad caiu. Ele era tudo aquilo, que mais odiava.

Quando foi procurar o rabino da sinagoga local para saber mais informações sobre seus antepassados, o sacerdote disse que encontrou uma pessoa despedaçada e sem nenhuma identidade. Um jovem cuja a vida era infeliz e vazia, mesmo com todo o poder, o qual ele achava que tinha. 

A descoberta da sua origem não ficou barata. Ele foi até ameaçado de morte pelo partido Jobbik, que ele ajudou a fundar.

Antissemitismo

Csanad começou a ser atacado pelo Jobbik.

Nesse contexto, o documentário nos mostra a jornada de um rapaz de um antissemita convicto o qual se tornou judeu ortodoxo.

Keep quiet - judeu ortodoxo

A história de Csanad é interessantíssima, pois ele literalmente vestiu a pele do grupo que mais odiava e viu os danos que causava. O documentário narra em detalhes a construção do partido de extrema-direita, com entrevistas dos membros, além de estudiosos e jornalistas e a posterior jornada de o rapaz em sua conversão ao judaísmo. 

O documentário nos faz tecer alguns paralelos com o Brasil.

Estamos em  crise política e econômica que já duram 3 anos. A consequência são os altos índices de desemprego e uma segurança pública devastada.

Vemos todos os dias o número de mortos em assaltos e balas “perdidas” crescerem assustadoramente. Também, o número alto de policiais assassinados em serviço tem crescido. Para o Estado, a vida das pessoas tem pouca importância, a população é tratada como descartável. 

Policial morta em Natal

Caroline Plescht policial catarinense assassinada em Natal chocou o país.

Recentemente, tivemos a execução da vereadora do PSOL – Marielle Franco, junto com o motorista Anderson Gomes. Ainda não sabemos quem são os assassinos e nem quais foram os motivos. Mas não podemos ignorar que Marielle representava grupos, que normalmente possuem pouca representação política: Mulher, negra, homossexual e moradora de uma favela, além de lutar pelos Direitos Humanos.

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Todos os homicídios citados são sintomas de um Estado patrimonialista, o qual os políticos que tem a função de nos representar, normalmente, agem somente em interesse próprio. 

Em decorrência disso,  presenciamos o crescimento do discurso de ódio referente as minorias. As redes sociais se tornaram palco de pessoas se gladiando por conta de opiniões diferentes. A tendência é piorar, visto que esse ano temos eleições presidenciais. 

Que o exemplo da Hungria e de Csanad possa nos lembrar dos perigos que corremos e qual o papel que escolheremos nesse contexto. 

Selecionei algumas reportagens que corroboram o paralelo do documentário com o Brasil atual. 

Judeus sofrem ameaças em São Paulo:

*Deem uma olhada nos comentários de notícias sobre a comunidade judaica ou Israel. É de cair o queixo. 

Turista negra é agredida e chamada de macaca por um empresário e uma médica. (Cuiabá- MT) 

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/06/turista-negra-e-agredida-e-chamada-de-macaca-por-empresario-e-medica.html

Haitianos são alvo de ataque no Centro de São Paulo:

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/08/haitianos-sao-alvo-de-ataque-no-centro-de-sao-paulo.html

 

 

 

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