Resenha livro: O Senhor do Paço de Ninães – Camilo Castelo Branco

O Senhor do Paço de Ninães é um romance da literatura portuguesa, publicado em 1867, é categorizado como pertencente aos romances históricos do autor.

A narrativa conta a história do protagonista Rui Gomes de Azevedo, o tempo é 1576 – 1621.

Lisbon_-_Lisbonne_-_Lisboa_1572
Representação de Lisboa de 1572.

O rapaz é contra guerra, apegado à mãe, passivo e dócil, completamente diferente do seu falecido pai, que foi cavaleiro e morreu lutando contra os mouros. 

Ele se orgulha de sua mãe, que mandou derreter o ferro das espadas do esposo para fabricar foicinhas para a lavoura. 

Rui Gomes de Azevedo é apaixonado pela prima Leonor, a quem está prometido desde pequeno.

João Esteves Congominho é o rival do protagonista, aquele que irá roubar-lhe a amada. Em uma conversa entre os dois podemos perceber um pouco a personalidade de Rui Gomes de Azevedo, cujas afirmações são emblemáticas: “Minha mãe é minha Pátria” e “minha mãe não me quer soldado”.

O rival percebendo a personalidade passiva do rapaz não hesitará em fazer uma manobra política, preparando seu casamento com Leonor, que aceitará passivamente a resolução de seu pai.

Desiludido com a prima, Rui Gomes de Azevedo decide acompanhar o rei Dom Sebastião para a campanha de Alcácer Quibir, no norte da África.

Nesse ponto, Camilo Castelo Branco decide colocar o dedo na ferida narcisista portuguesa.

Portugal havia passado quatro séculos lutando por sua soberania. A derrota lusitana em Alcácer Quibir, impôs ao reino a perda do jovem rei Dom Sebastião, que desapareceu no Marrocos. A autonomia política teve seu fim, com a anexação de Portugal à Espanha, pois o rei não tinha herdeiros.

Batalha de Alcácer Quibir
Representação da Batalha de Alcácer Quibir.

A partir dessa perda, surgiu em Portugal uma crença messiânica que transformava Dom Sebastião em uma figura redentora, aquele que voltaria para libertar os portugueses do jugo castelhano. Sebastianismo é o nome dado à essa crença.

Dom-Sebastião
Representação de Dom Sebastião.

Interessante pensarmos, porque Camilo Castelo Branco retomou a longínqua guerra de Alcácer Quibir (1580), no século XIX?

Portugal e Espanha se tornaram nações decadentes no século XIX, em comparação com a Inglaterra, que liderou a Revolução Industrial.

Nesse período, começa uma dura crítica às políticas colonialistas portuguesas, apontadas como uma das causas da decadência das duas nações.

Em várias passagens do Senhor do Paço Ninães, a saída de homens para as guerras colonialistas deixaram o reino, completamente desamparado.

Também nesse tempo, as tropas napoleônicas invadiram Portugal, e o rei Dom João VI com sua corte embarcou para o Brasil, escoltado por embarcações inglesas, deixando o reino completamente desprotegido. 

Departure_of_H.R.H._the_Prince_Regent_of_Portugal_for_the_Brazils_(Campaigns_of_the_British_Army_in_Portugal,_London,_1812)_-_Henry_L'Evêque,_F._Bartollozzi
Henry L’Evêque F. Bartollozzi. Embarque para o Brasil do príncipe regente de Portugal, D. João VI, e de toda a família real, no porto de Belém, em 27 de novembro de 1807.

“Minha Pátria é minha mãe” significa uma tomada de posição do autor frente a terra e contra a expansão ultramarina. 

Lisboa século XVI.
Representação de Portugal de 1576.

A figura da grande mãe é ligada no inconsciente coletivo à terra, fertilidade e agricultura, em oposição ao grande pai, ligado à caça e a conquista.

Antero de Quental no texto: “Causas da decadência dos povos peninsulares” afirma: “Duas nações (Portugal e Espanha) generosas se transformaram em uma horda de fanáticos endurecidos”, por conta, da Inquisição e da educação jesuítica com seus métodos de ensino brutais, que esterilizaram as inteligências e mataram o pensamento questionador.

 

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