Projeto lendo: Dom Quixote – Miguel de Cervantes Saavedra (parte 3)

Olá, Pessoal!! Vou espaçar um pouco mais os posts sobre as leituras do Dom Quixote, para dar tempo de ler mais capítulos. 

No capítulo VIII, o narrador nos conta, que estava andando em um mercado em Alcalá e achou uns pergaminhos em árabe, contando a história de Dom Quixote e Sancho Panza. A obra seria de um árabe chamado Cide Hamete Berengeli.

Assim, aparece um outro narrador, que seria uma espécie de fantasma, pois só participa no capítulo VIII.

Don Quijote Real AcademiaPor conta disso, é interessante observarmos que o narrador primeiro não é “confiável”, pois, estaríamos lendo a obra de terceira mão, contada por Cide Hamete Berengeli,  o texto ainda passaria por um tradutor, um editor e depois pelo narrador e daí para nós leitores. 

Um pouco complicado, não é? Lembramos que Miguel de Cervantes é um escritor extremamente hábil, que joga com o leitor o tempo inteiro. 

A obra é repleta de chistes e possui várias camadas interpretativas. Devemos recordar que o autor estava escrevendo Dom Quixote em plena Inquisição espanhola, em que as obras que não se adequassem iam para a fogueira e o autor preso. 

Nesse caso é importante recordarmos que as guerras da Reconquista, em que os cristãos expulsaram os árabes da Península Ibérica era relativamente recente. Cervantes havia lutado contra os turcos na batalha de Lepanto e ficou preso em Árgel. 

Portanto, o fato de Cide Hamete Berengeli ser um árabe não está em o texto por acaso. Esse outro narrador é uma figura ridícula e sem função nenhuma. Ele é, na verdade, um personagem fantasma, que serve como um chiste, com o fim de ridicularizar mesmo. 

No capítulo XVIII, Dom Quixote e Sancho Panza encontram o enterro de Grisóstomo, que havia se suicidado por não ter tido uma paixão correspondida por uma moça chamada Marcela. 

Marcela é uma jovem rica e de família nobre. Para não ser obrigada por seu pai a casar-se com quem não queria, ela resolve tornar-se pastora e viver somente da companhia das ovelhas. 

Marcela Gustavo Doré
Marcela de Gustavo Doré.

No início, a personagem é caluniada, pois a culpabilizam da morte de Grisóstomo, depois o narrador dá espaço para ela apresentar sua versão dos fatos. 

“Yo nací libre y para poder vivir libre y escogí la soledad de los campos. Los árboles de estas montañas son mis compañias, las claras águas de estos arroyos mis espejos; con los árboles y con las aguas comunico mis pensamientos y hermosura.” 

Interessante que Cervantes construiu uma personagem mulher com vontades próprias, porém, podemos questionar a ideia de liberdade de Marcela. 

Não temos como viver isolados do mundo em meio das ovelhas. Marcela não era necessariamente livre, pois, estava primeiramente condicionada à um determinado espaço e tempo, além das características genéticas que são imutáveis. 

Novamente, Cervantes faz uma crítica velada ao idealismo e a utopia, que não temMiguel de Cervantes respaldo no mundo real. Se lermos com rapidez podemos interpretar, que Marcela era uma “revolucionária”, porém, é ao contrário, ela é misantropa, tentando fazer com que a realidade se dobre à sua vontade. 

Interessante, que no século XVII, o autor esteja discutindo as teorias que não possuem fundamento prático. Se traçarmos paralelos, podemos ver que todos os movimentos revolucionários, que não tiveram embasamento na realidade fracassaram. 

Cervantes pela sua própria experiencia conhecia a essência humana e sabia da impossibilidade de existir um mundo perfeito. 

utopia

Possivelmente, o autor esteja fazendo uma crítica severa à ideia de um mundo utópico definido por Thomas More, na obra Utopia de 1512. Em esse mundo perfeito não teríamos nenhum conflito, o que sabemos é impossível. 

Conforme Freud nos avisa em o “Mal-Estar da Civilização”, que mesmo se abolirmos as classes sociais e diminuirmos a desigualdade financeira (o que seria muito bom), não eliminaríamos o sofrimento humano, pois, as pessoas continuariam sendo diferentes e, por consequência, existiriam conflitos. 

O mais interessante é que Cervantes está debatendo a impossibilidade de vivermos em um mundo perfeito, muito antes da Psicanálise fazer isso. 

A leitura continua sendo muito prazerosa, pois, além de ter partes muito engraçadas ela nos traz reflexões atuais.

Deixo como indicação o blog do professor espanhol Jesús G. Maestro, que é especialista em Dom Quixote. 

http://jesus-g-maestro.blogspot.com.br/

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