Resenha livro: Lucíola – José de Alencar

Lucíola é quarto romance de José de Alencar, foi publicado em 1862.

O livro é narrado em primeira pessoa, pelo personagem-narrador Paulo: Um rapaz ingênuo, natural de Olinda e pouco habituado aos códigos sociais do Rio de Janeiro, para onde se muda.

O romance é epistolar, ou seja, o protagonista escreve cartas à uma senhora chamada G.M. que fica responsável por reunir todas e publicar um livro. Essas epístolas configuram uma tentativa do narrador de analisar o comportamento de uma moça carioca – Lúcia.

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Porém, isso cria uma tensão entre o Paulo narrador e o personagem, pois, a análise não é distanciada, mas completamente presente. 

Com esse recurso, José de Alencar pretendeu induzir no leitor um olhar voyerista, em que vamos acompanhando como intrusos a intimidade do casal.

Em uma festa, o jovem conhece Lúcia. Ele não a identifica como cortesã, mas é imediatamente alertado pelos seus amigos.

A moça tem apenas 19 anos de idade e já é uma das prostitutas mais ricas do Rio Janeiro.

A primeira cena do livro, Lúcia aparece em uma festa, dando esmolas para os pobres.

Os amigos do protagonista percebendo seu interesse pela moça, o convida para um banquete na casa de Sá, onde Lúcia seria a “atração” principal.

Nesse lugar, a jovem começa a imitar posições sexuais dos quadros que estavam na parede, para a êxtase de todos.

No entanto, Paulo se torna melancólico e praticamente foge do recinto. Apaixonado como estava, ele não consegue lidar com o fato de que Lúcia é uma prostituta e a princípio parece gostar do que faz.

Acredito que devemos desconfiar do narrador (Paulo), como fazemos com todas as obras narradas em primeira pessoa.

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Paulo estava completamente apaixonado por Lúcia e a idealizava, como o próprio disse em uma passagem: “Tu és um anjo, minha Lúcia!”

O protagonista a descreve como generosa, pronta para ajudar os mais necessitados. 

No entanto, os amigos de Paulo a descrevem como sovina, lasciva e interesseira. Rochinha (personagem secundário) chama Lúcia de Lúcifer, comparando-a com um anjo caído. 

O narrador tenta nos convencer de que Lúcia foi corrompida pelo meio e levada ao extremo pela necessidade.

Essa ambiguidade na descrição de Lúcia reflete o imaginário social em que a mulher é compreendida, ora como a Virgem Maria, ora como Vênus (a deusa romana do amor). 

O nascimento de Vênus

O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli.

O tempo inteiro essas duas imagens aparecem em a cortesã: lascividade e retidão,  há passagens em que Lúcia é a bondade em pessoa e em outras que a jovem é uma mulher hiper sexualizada para os padrões do período.

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Maria é a imagem da mulher pura e casta. 

A temática para época é pesada e talvez, seja por isso, que José de Alencar inocentou a protagonista, ao mesmo tempo em que ela pagou por sua conduta.

Segundo a historiadora Mary del Priori, a mulher era compreendida como um ser predisposto ao pecado por sua fraqueza moral, ela era um agente de Satã.

Na sociedade carioca as mulheres da elite eram colocadas sob forte vigilância dos pais e dos irmãos. As jovens quase não eram vistas nas ruas e em eventos públicos.

A virgindade e a castidade eram essenciais para assegurar um bom casamento, dentro do “mercado” matrimonial, portanto, todo o cuidado era pouco. 

José de Alencar se inspirou em A Dama das Camélias de Alexandre Dumas, deixando essa referência dentro da própria obra, em uma passagem que Lúcia está lendo a obra do escritor francês.

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Cena do filme: ” A Dama das Camélias, direção de George Cukor. 

A partir dos romances urbanos, o autor começa a denunciar a corrupção moral da sociedade, que era movida pelo dinheiro.

Confesso que a leitura de Lucíola foi prazerosa. Eu tinha um pouco de ranço do autor, devido a obrigatoriedade de ler as obras dele no segundo grau. Acredito que eu venci esse processo, pois a obra tem suas limitações, devido ao contexto social da época, no entanto, ela traz discussões bastante interessantes.

 

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