Resenha livro: Suicídio e Trabalho. O que fazer? – C. Dejours & F. Bègue

Centro de Valorização da Vida, Ligue: 188! 

A campanha do setembro amarelo visa a prevenção do suicídio. A partir disso, trouxe a sugestão desse livro, que discute algumas questões importantes:

Por que o trabalho leva alguns de nós ao suicídio? O que significam esses atos, que mensagem é endereçada para os ficam? O que ocorreu no mundo do trabalho para que suicídios sejam perpetrados nos locais de trabalho e por causa deles?

Na França, as discussões a respeito do suicídio no trabalho ou por causa dele estão bem mais presentes do que no Brasil, mas isso não significa que aqui o problema seja menor.

Na maior parte das vezes não se estabelece relações que liguem o ato do suicídio com questões do trabalho, por isso, um problema tão urgente acaba não tendo o debate que merece.

Os autores trabalham com os dados de suicídios franceses, no entanto, a realidade do Brasil não é muito diferente.

Segundo reportagem do Terra: “No Brasil, o último dado do Ministério da Saúde é de 2014 e mostra que naquele ano foram mais de 10.600 casos de suicídio no país. Em 2012, o País ocupava o oitavo lugar no ranking global de suicídios da Organização Mundial de Saúde. Não é possível saber quantos foram em ambiente de trabalho, já que o governo divulga os óbitos no trabalho sem discriminar a causa.”

De acordo com a Revista Exame, com a crise econômica os problemas psicológicos aumentaram muito. Quem está trabalhando aceita horas extras sem pagamentos, trabalhos de finais de semana e toda sorte de abusos por medo de perder o emprego.

“Aceitamos, por vezes, até mesmo humilhações, agressões – ou mesmo passarmos por cima de nossa ética – aceitamos, ou aturamos assédio moral”, completa a psicóloga Cacau Birdmad, para Revista Exame.

Os suicídios e tentativas de suicídio no local de trabalho começaram a aparecer na maioria dos países ocidentais na década de 90, sendo considerado um fenômeno recente.

Os números são alarmantes, no entanto, as empresas procuram se isentar de suas responsabilidades, imputando o suicídio a um temperamento depressivo ou psicopatológico próprio ao suicida, também, à conflitos afetivos que a pessoa mantinha na esfera privada.

Os autores falam sobre as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para negar a existência do sofrimento, principalmente, em ambientes em que predominavam a mão de obra masculina, como a construção civil e as Forças Armadas.

Expressões de coragem, força e invulnerabilidade eram incentivadas a serem mostradas em público, enquanto que qualquer sintoma psicopatológico de depressão era convertido em chacota.

Essa tradição levou os trabalhadores a canalizarem o sofrimento para fora do trabalho. Os suicídios, portanto, eram praticados fora do trabalho. 

Essa postura ainda aparece nas empresas, mas ainda assim, o número de pessoas que se suicidam no ambiente de trabalho aumentou bastante, conforme dito.

O ambiente de trabalho precarizado, com muitas horas de trabalho e uma rotina aparece como um dos responsáveis pelo aumento no número de casos de suicídio.

Devemos levar em consideração que para muitas pessoas, o trabalho é um poderoso operador de construção de identidade. Estudos já mostraram que o alcoolismo, uso de drogas, depressão e violência tem suas raízes em problemas no ambiente de trabalho.

A ideia de separação dos espaços entre trabalho e fora do trabalho não se sustenta, pois somos uma pessoa. Sempre as preocupações causadas no espaço do trabalho são levadas para o ambiente doméstico.

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Cena do filme: “Amor sem escalas” de Jason Reitman, em que o protagonista (Geoge Clooney) tem por função demitir pessoas em plena crise de 2008. Ele é contratado para que tudo seja feito de forma impessoal e sem ônus para a empresa contratante.

Mas, além da precarização do trabalho, quais os fatores na sociedade que contribuem para o aumento do número de suicídios?

Segundo os autores, o sentimento de solidão é o grande responsável: “A solidão e o abatimento se instalam no mundo do trabalho e isso muda radicalmente o cenário, no que diz respeito à relação subjetiva frente ao trabalho e à saúde mental.”

O assédio moral não é um fenômeno recente, mas a falta de solidariedade é. A terrível experiência do silêncio dos outros frente as injustiças.

A pessoa se considera traída pelos colegas e acaba se sentindo culpada por ser vítima de assédio moral.

Quantas pessoas tomadas pela dúvida sobre suas qualidades multiplicaram esforços na vã esperança de agradar e reconquistar a estima da chefia, porém em vão. Isso já aconteceu comigo e fui testemunha da mesma situação, com colegas meus.

Nesse contexto, o trabalhador acaba esgotado, sendo tomado pela insônia, pela tristeza e no meu caso acabei desenvolvendo ansiedade, o que acabou me levando a errar e o assédio se agravou.

A maioria das pessoas que passam por isso, a espiral da depressão se instala. Os sentimentos de impostura, de erro, de decadência tomam conta, podendo levar a pessoa a se suicidar.

Os autores analisam que em um ambiente hostil é muito comum os trabalhadores se juntarem para elegerem um bode expiatório. Os alvos preferenciais são aqueles com problemas de saúde ou pessoais.

Eu vivenciei um departamento sendo eleito como bode expiatório, por uma série de problemas políticos, este era culpabilizado pela maioria dos problemas. Assim, os salários eram muito baixos, a carga horária desgastante e o departamento era praticamente abandonado.

Na verdade, essa postura encobria um ambiente hostil e competitivo.

O diabo veste prada.
Em “O Diabo veste Prada” quem se lembra das humilhações sofridas por Andrea Sachs (Anne Hatway)? O pior é que a história é real.

Os autores entrevistaram alguns funcionários de uma empresa recorde de suicídios no local de trabalho; um funcionário descreveu o clima da empresa assim:

“Sei que estão me vigiando, que vão me pegar a qualquer momento, é insuportável. Estamos constantemente sendo vigiados, é pior que um gulag.” O depoimento era sobre colegas e chefes. 

Como podemos chegar a pontos como esse? Desenvolver ambientes de trabalho, que são verdadeiros “gulags”? (Gulags eram campos de trabalhos forçados no regime soviético). 

O mais impactante disso é a pouca discussão que encontramos sobre o tema, o quão pouco isso é falado no espaço público. Quanto menos falarmos sobre esses problemas, mais suicídios e pessoas doentes teremos.

 Infelizmente, o suicídio é considerado um atestado de fraqueza pelo senso comum. No entanto, como demonstram os autores, o gesto mostra que este fenômeno brutal é social e não é um ato isolado.

Somente substituindo competitividade e isolamento por cooperação e solidariedade que indicadores de saúde, como o suicídio crescente associado ao trabalho, terão alguma chance de reversão.

Centro de Valorização da Vida: https://www.cvv.org.br/

https://www.cvv.org.br/blog/o-que-posso-fazer-para-ajudar-quem-pensa-em-suicidio/

https://www.terra.com.br/noticias/dino/suicidio-em-ambiente-de-trabalho-ainda-e-subestimado,330598c255edeb22652227e78d26da5c7wsa340y.html

A relação entre suicídio e trabalho

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