Resenha filme: Uma noite de 12 anos – Alvaro Brechner

“Os únicos derrotados são os que abaixam os braços.”

Uma noite de 12 anos é uma coprodução espanhola, argentina e uruguaia. A narrativa se passa durante a ditadura civil-militar uruguaia e versa sobre a prisão, tortura, desumanização e resistência de três figuras importantes: Pepe Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernandez Huidobro.

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Pepe Mujica se tornou presidente do Uruguai 

Os três faziam parte de um grupo de guerrilha, que lutava contra o regime, chamado Tupamaros. Eles foram presos em situações diferentes, mas todos foram encarcerados de forma desumana.

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Chino Darín como o jornalista Mauricio Rosencof. 

Os Tupamaros se caracterizavam por seu idealismo, por exemplo, chegaram a roubar um cassino e distribuir o dinheiro entre os pobres uruguaios.

A instauração de um regime autoritário no Uruguai deu-se a partir da presidência de Juan María Bordaberry, do partido Colorado. Em 27 de junho de 1973, o governo dissolveu o parlamento e os partidos políticos, também suspendeu os direitos civis. As Forças Armadas mantiveram o comando da nação até 1985.

Alvaro Brechner não economiza nas cenas de tortura, tanto física, quanto psicológica todas são mostradas com detalhes, nos deixando agoniados.

Os três prisioneiros foram proibidos de falar entre si e colocados em celas solitárias.

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Antonio de la Torre como Pepe Mujica. 

Não podiam defecar sentados, recebiam uma comida qualquer, as celas eram lotadas de ratos e nem os próprios soldados, que faziam a guarda, podiam falar com os três.

Nunca foram nem mesmo julgados, não havia nenhum contato com o mundo exterior, somente, uma vez permitiram visita dos familiares.

Pepe Mujica começou a desenvolver esquizofrenia, a ouvir vozes e ver vultos. Rosencof por ser escritor ganhou a empatia de um sargento, ao lhe dar conselhos amorosos e ajuda-lo a escrever cartas de amor. Huidobro chegou perto de definhar em vida.

No total os três passaram 12 anos presos em condições de completa desumanização, 7 deles em solitária.

Dentro desse contexto de total desumanização, os prisioneiros começaram a bater na parede para poderem se comunicar. Uma batida era a letra A, duas eram B e assim por diante.

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Em outro momento, foram colocados em silos improvisados de cela. Os soldados incomodados com o espaço grande que eles tinham, demarcaram um espaço pequeno com tinta, eles não podiam passar dali.

O foco da narrativa são os mecanismos de sobrevivência, que cada um desenvolveu em condições extremas.

Privados de qualquer contato com o mundo exterior e da luz solar em alguns momentos, a mente deles perdeu a capacidade de ordenação. No entanto, heroicamente, eles desenvolveram uma resistência emocional impressionante.

Os militares foram retratados como seres humanos comuns, porém, meramente cumpridores de ordens, como em uma cena, que Huidobro não consegue defecar, pois está com os braços presos.

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Mujica, Rosencof e Huidobro. 

A narrativa foi baseada no livro “Memórias de um calabouço” de Rosencof e Huidobro, sendo magistralmente transformada em um filme desesperador.

Muitas vezes a democracia é muito desvalorizada em nosso país, alguns pedem a volta do regime militar. Obras como essa vem nos lembrar, que por pior que seja um estado democrático ele é mil vezes melhor que uma ditadura.

Alguns podem argumentar, mas os prisioneiros lutavam contra o regime, então tudo bem ficarem presos. Sim, se eles tivessem sido julgados e condenados, além de terem ficado em uma cela.

No entanto, o que aconteceu foram diversos crimes de guerra, por não existir um Estado de direito. Portanto, a denúncia que o filme faz é extremamente importante e pertinente.

Lembrando, que eles atuariam de maneira democrática se assim, o Estado permitisse, o que não acontecia.

Fica a dica para vocês de um filme excelente!

Entrevista do Bial com Pepe Mujica:

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