Resenha Poema: Altazor – Vicente Huidobro

vicente huidobroVicente Huidobro foi um poeta chileno (1893-1948) um dos fundadores do movimento vanguardista literário latino-americano. Em 1914, ele escreveu o manifesto Criacionista – Non Servian, em que explica o que esse movimento significa; a partir dele poderemos compreender sua obra.

O Criacionismo apresentou uma proposta de estética de ruptura, reflexo de uma crise de valores e um colapso espiritual no mundo moderno.

Em “Non Servian”, Huidobro afirma que o poeta não deve ser um imitador da natureza, mas ser um criador, um “Hombre-Dios”.

“Y he aquí que una buena mañana, después de una noche de preciosos sueños y delicadas pesadillas, el poeta se levanta y grita a la madre Natura: Non serviam. Con toda la fuerza de sus pulmones, un eco traductor y optimista repite en las lejanías: No te serviré». La madre Natura iba ya a fulminar al joven poeta rebelde, cuando éste, quitándose el sombrero y haciendo un gracioso gesto, exclamó: Eres una viejecita encantadora”.

Nesse manifesto houve um diálogo com o Cubismo, principalmente Picasso, com Wassily Kandinsky e a Bauhaus, Baudelaire, Mallarmé, Freud e Nietzsche.

As Vanguardas da América Latina buscaram inspiração nos movimentos e autores citados europeus, mas também nos mitos indígenas e nos ritos afro antilhanos.

imagesA obra Altazor foi escrita entre 1919 a 1931, é composta por sete cantos e cada canto possui independência dentro do conjunto.

No poema a figura do poeta se torna um antipoeta, ou seja, não temos mais um poeta imitador da natureza, sentimentalista, depositário de inspiração, mas um poeta que cria tudo racionalmente e olha para sua psiquê.

Uma frase de Kandinsky permite a compreensão do pensamento de Huidobro, mostrando que há convergências dos pensamentos:

“O pintor já não deve continuar adorando um mundo decadente, mas voltar-se para única fonte de beleza que lhe resta, ele próprio.”

Em Altazor o narrador cai de paraquedas dentro de si mesmo. Com o mergulho dentro de seu inconsciente, Huidobro trabalha sua identidade mais profunda.

“Mi paracaídas empezó a caer vertiginosamente. Tal es la fuerza de atracción de la muerte y del sepulcro abierto.”

A imagem de uma pessoa caindo de para- quedas dentro de si mesmo é recorrente em Altazor. Um nítido diálogo com a Psicanalise, o narrador vai caindo dentro do seu inconsciente, ou seja, dentro de si mesmo:

“Cae eternamente

Cae al fondo del infinito

Cae al fondo del tiempo

Cae al fondo de ti mismo

Cae lo más bajo que se pueda caer.

Cae sin vértigo.”

Apesar de compor em versos livres, Huidobro tinha uma profunda preocupação com a sonoridade e a rima, conferindo um ritmo lento ao poema, como se o narrador estivesse realmente caindo em si, devagar como em um paraquedas. (Sugiro que leia o trecho acima em voz alta para perceber o ritmo).

Em Altazor, Huidobro dialoga  com Nietzsche, pois o narrador apregoa a morte do cristianismo. Uma das características da modernidade é ideia de que a religião morreria.

“Abrí los ojos en el siglo

En que moría el cristianismo

Retorcido en su cruz agonizante

Ya va a dar el último suspiro.”

A poesia de Huidobro propõe um mundo criado pela palavra, somente através da arte da escrita seria possível compreender o todo.

A arte poética do autor é de extrema importância para a compreensão da poesia na América Latina.

Esta breve resenha não pretende esgotar a análise de uma obra tão complexa. Só quero deixar para vocês a dica de um livro incrível!

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