Resenha filme: Roma – Alfonso Cuarón

Roma é um filme autobiográfico, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, que conta a história da empregada doméstica Cleo, que trabalha para uma família da classe média mexicana. A história se passa no bairro Colônia Roma, na Cidade do México.

roma - a empregada em pé, enquanto a família assiste a televisão
Não fica claro quem é o Alfonso Cuarón dentre os três meninos, mas acredito que seja o mais novo, pois é o mais apegado à Cleo. Cuarón passa a mensagem de forma sutil, pois todos estão sentados, enquanto a moça está em pé, evidenciando a exploração.

A jovem passa os dias cuidando da família, principalmente das crianças e do cachorro, lavando as roupas, pisos e organizando a residência. Sua melhor amiga é a cozinheira Adela.

O pai da família, Dr. Antônio chega todos os dias estacionando um carro americano gigante, em uma garagem estreita, evidenciando o esforço da classe média mexicana em se moldar à modernidade e consumo estadunidense. Até que um dia, ele não volta mais, pois abandonou a família.

roma - o carro como a representação do pai
O carro é a representação do pai. Uma pessoa que não “cabe” muito bem na vida que escolheu.

Sofía é bioquímica, como a maioria das mulheres do período, largou o trabalho para cuidar da família, assim, ela terá que ver uma forma de ganhar dinheiro, para sustentar a casa.

roma - pássaros representam a falta de liberdade
As gaiolas representam a falta de liberdade de pessoas como  Cleo, mas também de mulheres como Sofía, condicionadas à uma vida com poucas opções de escolha, por ser mulher.
roma - avião
Em contraposição às gaiolas vemos várias vezes aviões passando, evidenciando liberdade e conquista, condições negadas à pessoas como a protagonista.

Cleo arruma um namorado, chamado Fermín. Um rapaz do interior do México, que treina artes marciais.

roma - femín sexualidade
Yaltiza Aparicio que interpreta Cleo tem uma atuação excepcional, essa cena é incrível. A casa é de Fermín e percebemos o quadro torto na parede, evidenciando as escolhas do personagem.

Os dias são preenchidos como muito trabalho e cinema, com filmes americanos nos finais de semana.

xícara quebrada.png
Cuarón trabalha com muito simbolismo nas cenas, como essa com a xícara quebrada simbolizando as perdas vivenciadas pelas personagens.

A narrativa não trata diretamente de política, mas ela é essencial para compreendermos um pouco da trama. O filme é muito preciso na recriação da década 70 no México, com seus costumes e conflitos políticos.

Nos anos 70, o Partido Revolucionário (PRI) governava o país, desde a sua fundação em 1929. Havia muita tensão, pois o partido conseguiu o poder através de fraudes.

A questão da terra é central para entendermos as origens da personagem Cleo e as cenas em que a família viaja para fora da Cidade do México. A propriedade em questão é incendiada e um cachorro assassinado.

roma incendio no bosque
Incêndio em uma propriedade no interior do México.

Essas disputas territoriais têm raízes no passado histórico mexicano, pois em 1900, muitos camponeses tiveram suas terras confiscadas pelo governo e foram vendidas aos latifundiários ricos, gerando pobreza e alta concentração de terras nas mãos de poucos.

Assim, os trabalhadores rurais passaram a viver em condições de miserabilidade, gerando uma migração em massa para a Cidade do México. Lembrando que a maioria dos despossuídos era de origem indígena.

Outra cena importantíssima é a recriação do massacre de Corpus Cristi. Em 10 de junho houve uma passeata de estudantes e professores, um grupo de paramilitares, conhecido como Los Halcones (os falcões), treinado pela CIA e pelo governo mexicano assassinaram centenas de pessoas.

roma - formação dos paramilitares
Os paramilitares foram treinados pela CIA e pelo governo mexicano para massacrar qualquer oposição ao governo.  Vemos novamente o avião.

Apesar do pano de fundo conflituoso, Roma não faz nenhum tipo de panfletagem ou julgamento moral. Os acontecimentos são mostrados secamente para nós, possibilitando o nosso próprio entendimento.

Para quem está acostumado com narrativas norte-americanas pode estranhar um pouco, pode achar que não há um final. Cuarón optou por não redimir ninguém, mas mostrar um cotidiano com pessoas comuns.

Libo and Idrector Alfonso Cuarón credit: Netflix
Alfonso Cuarón com Libo, representada por  Yaltiza Aparicio, como Cleo.

A edição, enquadramento e fotografia são muito bem feitas, fazendo com que nos identifiquemos com os personagens, criando uma proximidade. A trilha sonora aparece somente quando há necessidade, em muitas cenas ficamos no silêncio.

Fica a dica para vocês de um filme espetacular!!

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“la ciudad era un moridero de sueños
materia nebulosa y rutilante
cardumen de peces ciegos nadando en círculos
hasta desfallecer.
junto a mí yacían las ideas más sublimes
un hombre solitario desafiaba a las bestias
los árboles desnudos abrazaban a las aves y sus nidos
y el miedo prófugo profano antropófago pagano
nos encontraba siempre
a la vuelta de la esquina.”  Alfonso Aguilar Orihuela (escritor de Oaxaca, México)

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