A Teoria Freudiana e o modelo fascista de propaganda – Theodor Adorno

Após a Primeira Guerra Mundial, Freud se voltou para análise e desenvolvimento do conceito narcisismo e os problemas do ego.

Antes do fascismo se mostrar como uma ideologia tão perigosa, Freud escreveu em 1922, “Psicologia das massas e análise do eu”, nessa obra percebemos que o autor compreendeu a natureza dos movimentos de massas, que deram origem ao fascismo, mesmo antes da ascensão dos regimes totalitários.

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Em uma massa como essa, a pessoa perde o eu, que passa a ser governado pelo líder.

Segundo Freud, uma pessoa em grupo é colocada sob condições que lhe permitem se livrar das repressões de seus instintos inconscientes.

O que vem do inconsciente para o consciente são atitudes primitivas contraditórias com seu comportamento racional normal. O fascismo fez emergir o arcaico da civilização: o trauma do assassinato do primeiro pai.

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Hitler fazia emergir o sentimento de submissão ao primeiro pai, gerando sentimentos masoquistas na população.

Em “Totem e Tabu”, Freud desenvolveu a ideia de que o patriarca fundador da humanidade, por ser dono de todas mulheres do clã, teria sido assassinado pelos filhos, assim surgiu o sentimento de culpa e o desenvolvimento superego.

Numa multidão com os mesmos ideais, o sentimento recalcado de remorso e submissão pela morte do pai primevo emerge fazendo com que a pessoa se submeta a uma figura de autoridade.

A figura de Hitler era hipnotizadora e autoritária, por isso, se identificava no inconsciente coletivo com a imagem recalcada do primeiro patriarca.

Essa figura construída como uma personalidade a ser temida começa governar o eu da pessoa.

Pelas medidas que Hitler tomava em seus discursos (postura, impostação de voz, etc.) despertou nas massas a ideia de que ele era uma personalidade forte poderosa e perigosa, em relação à qual apenas uma atitude masoquista perante ele é possível.

Líderes como Hitler são amados, porque apresentam uma superioridade, que nos esforçamos a alcançar, idolatrar uma personalidade autoritária é uma maneira indireta de satisfazer o nosso narcisismo.

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Hitler brincando com sua cachorra Blondie, poderia ser qualquer um de nós.

Outra característica desse tipo de liderança é apresentação dele como uma pessoa comum, ao mesmo tempo como um super-homem, mas nunca como uma pessoa inferior.

Stálin também é um exemplo perfeito de líder autoritário descrito pelo Adorno, que parece superior e igual ao mesmo tempo.

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Stálin brincando com a filha. Ele também faz o duplo superior e igual.

Era uma pessoa de origem miserável, que se tornou um dos principais líderes da Revolução Russa e por isso era admirado. Trotsky jamais conseguiria, pois não era visto como um igual perante o povo por ser judeu, então, caía na ideia de inferioridade.

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Hitler fazia o duplo de superioridade e igualdade ao mesmo tempo.

Adorno chamou esse conceito de “grande homem comum”, alguém que sugere tanto onipotência, quanto a ideia de que é apenas um de nós.

“A imagem do líder satisfaz o duplo desejo do seguidor de se submeter à autoridade e de ser ele próprio a autoridade. Isso corresponde a um mundo no qual o controle irracional é exercido. As pessoas obedecem aos ditadores por meio de presunção de que elas próprias são o opressor cruel.”

As cerimônias ritualísticas são constantemente enfatizadas, para que o líder mostre a diferenciação hierárquica existente e ela e o líder, entrando em harmonia com os desejos sadomasoquistas do indivíduo.

Também há um ganho narcisista para essa pessoa que serve ao líder. A ideia de que o seguidor por pertencer ao grupo é superior. Qualquer crítica a personalidade autoritária ou alguma análise racional é visto com ressentimento.

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Mussolini também se vendia como um grande líder, ao mesmo tempo que aparecia em atividades cotidianas.

A religião também pode ter um caráter autoritário, quando o amor é demonstrado àqueles que pertencem à comunidade. Portanto, mesmo uma religião que se autodenomina como a religião do amor, deve ser dura com quem não pertence a ela.

Dentro da ideia desenvolvida por Adorno, podemos analisar rapidamente alguns políticos brasileiros e ver se eles se encaixam no espectro autoritário.

Jânio Quadros tentou desenvolver um tipo de liderança, se mostrando como uma pessoa do povo, arrotando e comendo pão com mortadela. Conseguiu se eleger, mas não chegou nem perto de ser um grande líder.

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Janio Quadros tinha boa oratória, mas não fez o duplo superioridade e igualdade.

Lula era percebido como um igual pelo povo, mas não como um superior. Por exemplo, as declarações dele de que nunca tinha lido um livro era visto como um demérito, então, ele oscilava entre a igualdade e a inferioridade na percepção popular.

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Lula tem boa oratória, fez carreira como sindicalista, mas não se apresentou com superioridade perante o povo. Muitos questionavam seus méritos.

Bolsonaro se apresentou como um político diferente, se mostrando como um superior por ser militar, que se formou em Agulhas Negras,  também construiu muito bem a figura de um inimigo, os vermelhos e somente ele será capaz de salvar o Brasil desse mal.

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Bolsonaro como militar se apresentou como único capaz de livrar o Brasil do perigo vermelho, ressuscitando os temores da época da Guerra Fria.

O presidente atual oscila entre a imagem de superioridade e a igualdade, quando come um lanche em Davos e assina um documento com uma caneta bic, as pessoas o veem como um igual, ao mesmo tempo o enxergam como um super-homem combatendo a “ideologia de gênero” nas escolas e os movimentos sociais, além de gerar empregos. Para muita gente sua figura se assemelha a do grande pai.

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Bolsonaro desenvolveu a imagem de pessoa simples, que poderia ser qualquer um de nós.

Com isso não estou dizendo que Bolsonaro seja nazista, ou que vivemos em uma ditadura, mas a maneira como ele construiu sua imagem se assemelha com a análise que Adorno fez da propaganda fascista.

Fica aqui a dica desse ensaio brilhante, que nos ajuda a compreender o nosso tempo!

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8 comentários

  1. Matéria excelente parabéns !! Sobre Hitler nenhum líder teve uma ligação tão profunda como ele teve com o povo alemão era inacreditável a fé que os alemães tinham nele era uma sintonia inexplicável .

    Curtido por 1 pessoa

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