Resenha livro: Tudo se Ilumina – Jonathan Safran Foer

Segundo Zygmunt Bauman, a identidade se constrói sobre a base do reconhecimento de alguma origem comum ou algumas características compartilhadas com outras pessoas de um grupo com o mesmo ideal. A construção da identidade está sempre em processo, pois nunca termina.

Em “Tudo se Ilumina”, Jonathan Safran Foer construiu uma narrativa em que os personagens possuem problemas e vazios existenciais provenientes da falta do conhecimento de seus passados, gerando fragmentações identitárias.

Os personagens Jonathan e Alexander não sabem sobre seus respectivos passados. Jonathan ainda tem alguma ideia, porém Alexander não imagina a verdade sobre seu avô. 

O livro é polifônico, um narrador desmente o outro e não existe uma verdade e muito menos uma narrativa linear, fruto desta fragmentação.

Na história temos um autor-narrador-personagem, que também se chama Jonathan, que narra a história junto com um jovem ucraniano, chamado Alexander.

Alexander é o narrador da viagem de Jonathan até a Ucrânia. O rapaz americano foi até o país de origem de seu pai, para procurar seu antigo povoado, chamado Trachimbroad, que foi destruído pelos nazistas.

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Monumento em memória dos judeus mortos em Trachimbrod.

Seu pai se salvou com a ajuda de uma moça – Augustine e Jonathan gostaria de conhece-la para agradece-la, pois sem a ajuda dela, sua família jamais teria existido. Interessante que o autor também fez essa viagem.

Durante a viagem à Ucrânia, Jonathan tem a ideia de escrever um livro sobre a história de sua tata tataravó, chamada Brod.

A história que ele cria é cheia de elementos mágicos, justamente porque lhe faltam informações, o caos também é um elemento da construção da narrativa.

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Trachimbrod hoje. Não sobrou nada do antigo shtel que foi completamente destruído pelos nazistas.

 Com Jonathan somos transportados para 1791, cuja história começa com um acidente no rio Brod, na qual a única sobrevivente é um bebê.

O shtetl (aldeia em iídiche) era dividida entre os judeus desleixados e os corretos, tendo dois rabinos diferentes.

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Um shtel em Kiev na Ucrânia. Mais ou menos o que era Trachimbroad.

A menina foi adotada pelo desleixado e agiota Yankel, que vivia em depressão, porque tinha sido abandonado pela esposa, sua felicidade era a filha adotiva.

Enquanto isso, a história é enviada para o Alexander que faz algumas críticas à narrativa e vamos vendo como ela vai sendo construída.

A viagem de Jonathan para a Ucrânia é permeada por passagens muito engraçadas. Alexander é o tradutor e não sabe falar inglês fluente, então as palavras que ele escolhe são bem diferentes e não se encaixam muito bem, gerando momentos hilários.

No percurso de Odessa até o interior da Ucrânia o Vovô de Alex é o motorista, que acha que é cego, por isso, ele tem que andar com sua cachorra, chamada Samy Davis Junior Junior.

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Sammy Davis Junior Junior

A cadela é descrita como doida e ao ver Jonathan, que morre de medo de animais, se apaixona. Podemos entender que a cachorra é um elemento da personalidade de Jonathan, um instinto animal que ele reprime, por isso, o pânico de cachorros.

O carro é velho e a percurso é feito de forma devagar, com passagens que rende muitas risadas.

Na versão cinematográfica “Uma vida iluminada”, de Liev Scrieber  a narrativa se concentra na narrativa de Alexander. A história é linear e organizada, diferente do  livro.

Para caracterizar o personagem de Jonathan como uma pessoa de identidade fragmentada, ele aparece como um colecionador compulsivo.

Desde a infância o personagem carrega pacotes plásticos em que coloca os objetos que encontra, depois rotula e coloca em um grande painel. Essa parte não tem no livro.

Em uma passagem, Alex diz que estranha Jonathan porque não parece os judeus dos livros didáticos, que são magros e ossudos (Holocausto) e nem americano loiro de olhos azuis.

Nesse trecho vemos que Jonathan por não ter conhecimento do seu passado, tem crise de identidade, assim como Alexander e Vovô. O rapaz americano tem dificuldades em se identificar como judeu ou como americano.

Vou além em dizer que Alexander é uma personalidade de Jonathan, que ficou pouco desenvolvida devido a ruptura familiar ocorrida com a fuga do avô do personagem para a América.

Gyldendal autumn launch*

Jonathan Safran Foer nasceu em Washington em 1977, conhecido pelos seus romances “Tudo se Ilumina” (2002), e “Extremamente alto e incrivelmente perto (2005). Em 2009, publicou a sua primeira obra de não ficção: “Comer Animais”.

Fiquei com vontade de ler os outros livros dele, pois gostei muito de “Tudo se ilumina” e já tinha adorado o filme. Em alguns momentos a narrativa parece confusa, mas no final tudo se encaixa.

Deixo com vocês a dica de um livro e um filme incrível, que vale muito a pena!

Veja “Uma Vida Iluminada”: https://juorosco.blog/2017/06/11/resenha-filme-uma-vida-iluminada-liev-schreiber/

Me siga no instagram! https://www.instagram.com/oroscojuliane/

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2 comentários

  1. Ótima analise como sempre !! Juliane,tem um site excelente sobre a segunda GM chamado ”ecos da segunda guerra” você conhece ? tem um vasto conteúdo com matérias muito interessantes sobre esse assunto,vale muito a pena conhecer o canal ..

    Curtido por 1 pessoa

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