Resenha livro: Capitalismo Parasitário – Zygmunt Bauman

Para Bauman, o capitalismo é um sistema parasitário e como todo o parasita ele pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento.

Rosa Luxemburgo acreditava que o capitalismo se alimentava da conquista de territórios onde a economia capitalista ainda não estava desenvolvida, então os europeus dominavam o lugar e impunham sua economia e cultura.

No entanto, como demonstra o autor, o imperialismo nos países asiáticos e africanos não eram os únicos hospedeiros potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade.

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Nessa propaganda, eles usaram a palavra praticidade, ou seja, quanto menos problemas você tiver para usar o cartão, mais você comprará e pagará os juros por isso.

Hoje sabemos que a força do capitalismo está na extraordinária engenhosidade com que busca e descobre novos hospedeiros.

“Não adie a realização do seu desejo” foi assim que cerca de 30 anos atrás houve a introdução dos cartões de crédito.

Nos tempos analisados por Max Weber em “A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo” ceder as tentações de comprar a prazo e pagar juros seria impensável, nesse período era preciso adiar a satisfação, gastar com prudência e ter uma vida regrada.

Com o excesso de produção nas décadas de 50 e 60 do século XX, a mentalidade protestante calvinista atrapalhava a sobrevivência do sistema.

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Na década de 50 e 60, a população passou a ser bombardeada por propagandas. O calvinismo com a pregação da disciplina e da poupança atrapalhava a sobrevivência do sistema. A foto é uma propaganda  Renault-Willys Dauphine

Assim, através da propaganda os empresários começaram a introjetar a ideia de que é possível satisfazer todas as suas vontades sem ter que ajuntar dinheiro para isso.

Compre agora e pague depois, ou seja, desfrute agora e pague depois. Com um cartão de crédito, todos estamos “livres” para administrar a satisfação, para comprar quando desejar, não quando ganharmos o suficiente.

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O modo de vida protestante calvinista atrapalhava a ascensão de um novo tipo de capitalismo. Nas décadas de 50 e 60 houve o fomento das igrejas neo pentecostais, principalmente da linha da teologia da prosperidade. Os cultos são verdadeiros shows, a riqueza e o consumo são incentivados. Na foto um culto neo pentecostal no Brasil.

No entanto, o que as propagandas não avisam é que esses empréstimos terão que ser pagos e ainda com juros.

“Para impedir que o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil se reduza a um lucro que o emprestador só realiza uma vez com cada cliente, a dívida contraída tinha de ser (e realmente foi) transformada numa fonte permanente de lucro”.

Ao contrário dos agiotas de antigamente que ficavam loucos para reaver seu dinheiro, os bancos querem que nós atrasemos o pagamento de nossas dívidas, pois são os juros que garantem a lucratividade.

Ainda se for o caso oferecem mais créditos para quitar as antigas dívidas e com isso lucrarem mais com os juros.

O cliente que paga prontamente o dinheiro que pediu emprestado é o pesadelo dos credores, o devedor ideal é aquele que jamais paga suas dívidas.

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Você não precisa adiar sua felicidade, pode comprar agora e pagar depois.

As pessoas que tem uma caderneta de poupança e nenhum cartão de crédito são considerados “terras virgens”, uma vez que entrem no jogo dos empréstimos não podem permitir que saiam.

A contração do crédito não é resultado do insucesso dos bancos, mas ao contrário é o fruto de seu extraordinário sucesso em transformar todo o tipo de pessoas em devedores.

Quem se lembra da recente recessão econômica norte-americana? Foi o Estado que criou novos mercados para resolver a falta da casa própria. O presidente Clinton foi quem introduziu as hipotecas subprime. “Elas eram garantidas pelo governo, a fim de oferecer crédito, para compra da casa própria, a pessoas desprovidas dos meios de pagar dívida assumida, e, portanto, a fim de transformar setores da população até então inacessíveis à exploração creditícia em devedores”.

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Sem tetos vivendo nas calçadas de Los Angeles, devido a recessão econômica de 2009.  Com a bolha dos imóveis muitos perderam suas casas.

Bauman faz a analogia de que da mesma maneira que o desaparecimento de pessoas descalças representa um problema para a indústria de calçados, o desaparecimento de pessoas endividadas seria um desastre para os bancos.

Além de apresentar a tese sobre o capitalismo parasitário, o autor fala sobre a questão educacional. Em um mundo líquido, o conhecimento perdeu o valor. Como ficará a educação daqui para frente? Ainda é incerto.

Também temos o problema do medo, a população ocidental hoje vive temerosa. A sociedade é tão volátil que fica difícil definir e localizar a origem de todos os medos modernos.

Os medos são muitos e diferentes, mas se alimentam entre si. A combinação deles cria um estado na mente e nos sentimentos que só pode ser descrito como um ambiente em permanente insegurança.

Os políticos e as empresas acabaram transformando esse aspecto da sociedade líquida em um mercado lucrativo.

Por conta desse medo constante, Bauman diz que fica mais fácil acreditarmos que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.

No caso do Brasil, as eleições de 2018, demonstrou que os medos da época da Guerra Fria ainda estão presentes, por exemplo, o temor de uma Revolução comunista ou da volta da Ditadura Militar. O medo não tem lado e é explorado por todos os espectros ideológicos.

O medo dos brasileiros de viverem em uma ditadura de esquerda ou de direita facilitou a propagação das fake news.

Bauman relaciona doenças como a anorexia às tendências egocêntricas da sociedade, pois vivemos em uma cultura que promove uma estratégia de vida baseada no prazer.

A sociedade vende dietas para emagrecer, ao mesmo tempo pratos requintados e caros. Para você poder desfrutar precisa estar com uma aparência “adequada”, mas esse desfrute o deixará mais gordo e daí entramos em um círculo vicioso.

Dentro desses aspectos, “Capitalismo Parasitário” nos ajuda a compreender melhor como funciona a economia dos nossos tempos e como o capitalismo se sustenta atualmente.

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Até os inimigos do capitalismo são re- significados  e transformados em estampas de roupas. O capitalismo tem a capacidade de se reinventar.

Rosa Luxemburgo dizia que quando o capitalismo tivesse tomado todos os países, ele poderia cair, pois acabaria os terrenos férteis. O sistema demonstrou ser mais flexível do que ela imaginava, pois por meio dos bancos ele criou um terreno praticamente inexplorado.

Fica a dica para vocês de um livro importantíssimo!

Me siga no instagram e veja o que estou lendo! Lá enquanto vou lendo, posto imagens e comentários dos livros: https://www.instagram.com/oroscojuliane/

Para compreender um pouco da “Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo do Max Weber, acesse aqui: https://juorosco.blog/2019/01/24/resenha-livro-a-etica-protestante-e-o-espirito-do-capitalismo-max-weber/

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3 comentários

  1. Excelente post! Amarrou muito bem vários aspectos do capitalismo. Acho emblemática a propaganda de um banco muito bonzinho que pergunta o que ele pode fazer pelo telespectador hoje, sem falar nas XP da vida… Já te sigo no Instagram também!😊😘

    Curtido por 2 pessoas

  2. Vi esse livro no seu instagram vim aqui ler a resenha inteira. Gostei bastante, quanta gente está pendurada nos cartões de crédito, eles incentivam a gente a cada dia se endividar mais. Não sabia que o capitalismo estava sobrevivendo assim.

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