Resenha livro: A Trégua – Primo Levi

Primo Levi (1919-1987) tem um papel fundamental na Literatura e na História, pois é uma testemunha importantíssima de uma imensa tragédia no século XX: O Holocausto.

“A Trégua” foi publicado em 1963, e narra o seu retorno para sua casa na Itália, após a libertação de Auschwitz, pelos soviéticos.

Kiev Ucrania
Kiev após o fim da Segunda Guerra Mundial.  Essa era a Europa vista por Primo Levi. 

Nesse trajeto, o autor se deparou com uma Europa destruída, pessoas passando fome e frio, além de lidar com a burocracia soviética.

Como em “É Isto um Homem?” e “Afogados e sobreviventes”, o olhar de Primo Levi é detalhista e bastante crítico.

Ainda em Auschwitz, couberam aos soviéticos atender vários sobreviventes e como é compreensível ninguém estava preparado. A fome e o frio continuavam e ainda não havia a consciência exata de que o pesadelo dos campos havia acabado.

“Deram-nos camisas e cuecas, e levaram-nos ao barbeiro russo para que, pela última vez em nossa carreira, nossos cabelos fossem cortados a zero. O barbeiro era um gigante moreno, de olhos selvagens e endemoniados: exercia sua arte com impensada violência e, por razões por mim ignoradas, trazia a metralhadora às costas.”

Interessante observar que os soviéticos também sentiam a conhecida vergonha diante dos estragos feitos pelos alemães, segundo o autor: “Não acenavam, não sorriam; pareciam sufocados, não somente por piedade, mas por uma confusa reserva, que selava as suas bocas e subjugava os seus olhos ante o cenário funesto. Era a mesma vergonha conhecida por nós, a que nos esmagava após as seleções, e todas as vezes que devíamos assistir a um ultraje ou suportá-la: a vergonha que os alemães não conheceram, aquela que o justo experimenta ante a culpa cometida por outrem, e se aflige que persista, que tenha sido introduzida irrevogavelmente no mundo das coisas que existem, e que a sua boa vontade tenha sido nula ou escassa, e não lhe tenha servido de defesa.”

Nas enfermarias fervilhavam enfermos com todos os tipos de doenças, os médicos eram poucos e estavam doentes, os materiais sanitários escassos e os remédios praticamente inexistentes. Pela manhã sempre recolhiam dúzias de cadáveres.

O mais chocante eram as crianças sobreviventes que estavam com o psicológico completamente dilacerado. Por exemplo, um menino de 5 anos, que sobreviveu por servir de dedo-duro dos prisioneiros para os oficiais da SS tinha como sonho se tornar um Kapo.

Outro menino, que provavelmente nasceu no campo não falava nenhuma palavra inteligível e a comunicação com ele era dificílima, pois morria de medo das pessoas.

Quando Levi foi dispensado da enfermaria ficou andando pelas ruas a procura de abrigo e acabou indo para uma cidade polonesa chamada Katowice.

Cidade velha Varsóvia
Varsóvia destruída após a Segunda Guerra Mundial. 

Todos os lugares estavam lotados, pois a necessidade era imensa, faltava tudo, é claro que a fome não apartava de Levi.

Nesse momento os soviéticos resolveram deslocar todos os italianos para um antigo quartel em ruínas, em uma cidade próxima a Odessa na Ucrânia.

A tristeza dos sobreviventes era muito grande, pois com o ócio havia muito tempo livre para lembrar as tragédias, que lhes haviam acometido nos campos de morte.

A distração de Primo Levi e seus companheiros era verem os soviéticos voltando para a casa, pois cantavam e dançavam. O autor também descreve momentos hilários como um ônibus alemão lotado de soldados russos, andando com três rodas e um tronco de uma árvore para manter o equilíbrio.

Caminhando pela floresta, os italianos descobrem uma casa, onde habitavam duas mulheres nazistas, que tinham por missão ficarem no local, passando informações. Com o fim da guerra sobrou para elas a prostituição como forma de sobrevivência.

Os militares alemães ficavam nas ruas implorando por pães e não raro apanhavam de quem passava.

O tráfico de mulheres começou a correr solto, muitas eram as órfãs que não tinham nenhuma maneira de continuarem vivendo. Então, alguns homens se aproveitaram dessa situação e começaram a vende-las em troca de pedaços de pão ou batata.

Os camponeses soviéticos estavam em uma situação de extrema miséria. Primo Levi narra o fato de um judeu que vai até um vilarejo vender uns peixes, por ele pescados, e encontra uma calamidade tão grande, fazendo com que o rapaz desse os alimentos.

Quando os italianos perguntavam aos soviéticos, quando voltariam para a Itália a resposta era sempre a mesma: “domani” (amanhã) e esse domani durou mais ou menos 1 mês e meio.

Mapa do percurso feito por Primo Levi
Mapa do percurso feito por Primo Levi de Auschwitz a Turim.

Até que Primo Levi e outros tantos italianos sobem no trem, que os levarão de volta para a Itália. A lentidão e as grandes paradas vão aumentando nossa angústia, diante de uma tragédia que não teve um fim imediato.

O autor vai nos descrevendo a paisagem, que passa pela estepe russa, pela Hungria e pela Áustria, completamente devastada, onde a população jaz em uma extrema miséria, por fim chega em Turim, onde ninguém o esperava.

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7 comentários

  1. Excelente post.
    Parece um livro que dá nó na garganta. Relatos de sobreviventes são sempre carregados de sentimentos, alguns até de ódio.
    Lembro-me de um livro que li tem bastante tempo, chamado ‘cem mil marmitas de gelo’. Contava o retorno para a Itália do que restou do exército italiano após a queda da frente em Stalingrado.
    Também um relato chocante.
    Vou buscar os livros que vc tem recomendado desse autor.
    Abraço.

    Curtido por 2 pessoas

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