Resenha livro: Os Fornos de Hitler – Olga Lengyel

“Memórias não servem apenas para nos lembrarmos do que aconteceu. Elas guiam nossas ações no futuro.” Olga Lengyel

Olga Lengyel (19 out. 1908 – 15 abril 2001) era uma moça judia húngara, foi prisioneira em Auschwitz-Birkenau e a única sobrevivente de sua família. O livro foi escrito logo após o fim da guerra em 1946, sendo considerado um dos primeiros testemunhos do que foi o nazismo.

000061103_1_Lengyel_Olga__200_201510262000

Em 1944, a autora foi deportada com o marido médico para a Alemanha. O casal acreditava que a deportação estava se dando por falta de médicos no país. No entanto, eles foram parar em Auschwitz com os seus dois filhos.

Chegando no campo de extermínio, Olga para proteger os filhos disse que eles eram menores de 15 anos e acabou condenando-os a câmara de gás.

Após ser separada do marido e dos filhos, ela passou pelo mesmo processo de outros prisioneiros, teve seus cabelos raspados, perdeu seu nome e ganhou uma tatuagem com número, recebeu roupas bizarras e sujas.

No caso das mulheres, os prisioneiros jogavam peças de roupas de forma aleatória, então a prisioneira poderia receber uma calça masculina enorme e uma blusa pequena, um vestido de festa esfarrapado com uma bota.

Depois de passar por muitos momentos muito ruins e ficar à beira da morte em uma seleção para a câmara de gás, ela por um milagre conseguiu ser colocada como enfermeira e assim Olga teve mais chances de sobreviver e pode ajudar as pessoas.

Quando estava a ponto de sucumbir psicologicamente, um prisioneiro sugeriu que ela fizesse parte de um grupo de resistência que estava sendo organizado.

“Temos que resistir, sussurrou um antigo prisioneiro que trabalhava na manutenção das estradas em nosso campo no dia em que chegamos. Nossa cabeça acabara de ser raspada e tremíamos de frio em nossos trapos, esperando as ambulâncias nos deixassem passar. Para conseguir resistir, ele acrescentou, há uma coisa a fazer nos organizar”.

Dessa maneira, Olga arriscou sua vida várias vezes contrabandeando armas e granadas, que foram utilizadas pelo grupo sonderkommand, responsável por retirar as pessoas mortas das câmaras de gás e mandar para os fornos crematórios, após cortarem os cabelos, que eram usados pela indústria, e os dentes de ouro.

wiki_AuschwitzOvens_AB4_500
Forno crematório em Auschwitz.

Os sonderkommands explodiram vários fornos crematórios para que o número de mortos diminuísse. Quando perceberam que ninguém poderia sair de Auschwitz vivo decidiram que deviam agir. Assim contrabandearam armamentos das empresas alemãs no campo para usarem contra os nazistas.

Irma Grese
Irma Grese, chamada de “Cadela de Auschwitz” era uma guarda da SS conhecida pelo seu sadismo e por abusar sexualmente de homens e mulheres. Após a guerra, em seu julgamento foi condenada a morte.

Um relato que me chamou muito a atenção foi sobre a guarda da SS, chamada Irma Grese. A mulher era amante ocasional do médico nazista Mengele (que fazia a maior parte dos experimentos), também era conhecida por abusar sexualmente de prisioneiros homens e mulheres. Olga detalha um desses abusos que ela presenciou.

Quando a nazista trabalhava no campo de Bergen-Belsen ficou conhecida por colecionar peles dos prisioneiros para fabricação de abajures.

“Durante as seleções, o “anjo loiro de Belsen”, como seria mais tarde chamada pela imprensa, usava o chicote com liberalidade.”

Olga por ser enfermeira e fazer parte da resistência contava com algumas informações privilegiadas, principalmente sobre os experimentos médicos. Mengele era obcecado por gêmeos e por anões.

Os experimentos não contavam com método científico nenhum, eram feitos de maneira aleatória e as pessoas eram assassinadas no final, podemos dizer que em nada contribuíram para a ciência.

A autora descreveu o processo de humilhação sofrida por padres e freiras, que eram tratados de forma bastante terrível.

“Em Birkenau, a freira sofreu humilhações inacreditáveis. Quando tiraram o seu hábito, os soldados alemães tiveram a ideia de vesti-lo. Para apimentar a brincadeira, dançaram de forma obscena na sua frente. Forçaram-na a marchar diante das tropas da SS sem roupa. Esse era um tipo de esporte alemão.”

No Campo E era onde ficavam os ciganos. A maioria das 8 mil pessoas vinham da Alemanha, Hungria, Checoslováquia e Polônia. Por algum tempo suas condições eram melhores do que a dos outros prisioneiros e para divertir os alemães, eles às vezes abusavam dos outros internos.

Em 1 de agosto tudo mudou, alguns caminhões chegaram, os nazistas falaram que os ciganos iam para seu novo lar, traduzindo eram as câmaras de gás.

“Não consigo esquecer o grito de uma das mães, uma cigana húngara. Ela se esqueceu de que a morte estava à espera de todos. Pensou apenas em seu filho, quando implorou: “Não tirem meu garotinho de mim. Não veem que ele está doente?”

Os trabalhos realizados eram bizarros e muitas vezes inúteis, o objetivo era desumanizar as pessoas através deles:

“Havia, porém, tarefas perfeitamente inúteis. Estávamos convencidas de que um desequilibrado mental inventara essas atividades com a intenção de enlouquecer a todas nós. Recebíamos ordens, por exemplo, para carregar pilhas de pedras de um lugar para outro. Cada interna tinha de encher dois baldes até a borda. Então nos arrastávamos por centenas de metros e depois os esvaziávamos.”

Olga infelizmente se sentia culpada pela morte de seus filhos e de seus pais, em seu coração permanecia o sentimento de que ela deveria tê-los salvado. Enquanto, a autora escreve o livro, os rostos dos mortos surgiam em sua frente pedindo para que ela contasse a história deles também.

Após a guerra, Olga se mudou para a França, onde escreveu esse livro, posteriormente, emigrou para os Estados Unidos, se casou com um americano e fundou o Memorial Library and Art Collection of Second World War, hoje incorporada pelo TOLI (The Olga Lengyel Institute), com o apoio da Universidade de Nova York.

Me siga no instagram!! Lá eu posto tudo que li ou estou lendo!! Fique de olho nos stories!

https://www.instagram.com/oroscojuliane/

Home

https://encyclopedia.ushmm.org/search?query=crematory+ovens+Auschwitz&languages%5B0%5D=en&page=4

Anúncios

3 comentários

  1. Até 1970 tudo que eu sabia sobre o nazismo, o Holocausto, a Segunda Guerra era proveniente dos filmes, das revistas e artigos de jornais, não tínhamos internet, no máximo podia-se fazer uma pesquisa em Bibliotecas e a melhor de todas era a Mario de Andrade em São Paulo, ali no começo da Consolação com a Xavier de Toledo. Bem em 1969 eu tinha começado a trabalhar como office boy para o ainda em construção no bairro do Morumbi o Hospital Albert Einstein, foi ali que pela primeira vez me deparei cara a cara com o Holocausto, ao vivo com sons, cores e a forma humana, ali conheci uma senhora polonesa que trabalhava no Caixa aonde pegávamos o dinheiro para as conduções e eventuais outros serviços, seu nome era Janina Berlinska, até então a única coisa que a diferenciava de nós era seu forte sotaque aonde ainda misturava os idiomas e nós adolescentes achávamos graça no seu jeito peculiar de falar nomes portugueses, invariavelmente nós rapazes virávamos para ela um outro gênero, ela não conseguia falar senhor então antes do nome saia um sonoro ” senhorrrra “…. Até um dia quando o verão se apresentou forte ela chegou um dia no Caixa com uma blusa de manga curta, foi ali que podemos ver no seu braço direito uma enorme tatuagem em azul escuro com um enorme número tatuado, como nosso olhos não saim do seu braço então ela rapidamente contou-nos, que aquele número ela ganhou quando esteve como prisioneira num campo de concentração na Polônia não lembro se em Treblinka ou Auschwitz, a partir daquele dia sobreveio um forte sentimento de pesar, porque fizemos a associação entre as imagens dos filmes com aquela senhora, só lembro que era um doce de pessoa sempre a se preocupar com nosso jeito de adolescentes meio que irresponsável, foi meu primeiro e real contato com a Guerra e seus horrores.

    Curtir

  2. Dia desses estava vendo um documentário sobre o Império Romano (ótimo por sinal) a força e o dominio que eles exerceram foi massacrante,e a ideia dos nazistas era justamente essa;fazer um império germânico nos moldes do império romano ou seja dominação total,trabalho escravo etc..a loucura e perversidade dos imperadores foi muito parecida com a dos lideres nazistas,só que a dominação NS seria muito mais cruel com os povos dominados.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s