Resenha livro: Contos de Kolimá – Varlam Chalámov

“O homem é o lobo do homem.” Thomas Hobbes

“Cada conto, cada uma de suas frases é antes de tudo gritada no quarto vazio: eu sempre falo sozinho quando escrevo. Grito, ameaço, choro. E não posso conter as lágrimas. Só depois, terminado o conto ou parte dele, eu as enxugo.” V. Chalámov

“Contos de Kolimá” nos conta um pouco da realidade dos gulags (campos de concentração soviéticos).

Os gulags eram campos de detenção e trabalho forçado e foi o principal meio de terror aplicado pelo governo stalinista.

Foi criado em 1918 e se chamava “Administração Principal dos Campos”, na qual a sigla abreviada em russo é gulag. No seu auge, a rede de gulags incluía centenas de campos de trabalho que abrigavam de 2 mil a 10 mil pessoas cada um.

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Imagem de um gulag na Sibéria.

Os gulags se basearam nas antigas prisões czaristas e nos campos de concentração construídos pelos espanhóis em Cuba.

Além dos presos políticos, os campos recebiam pessoas condenadas por vadiagem, roubo, estupros e pedofilia.

As pessoas trabalhavam cerca de 14 horas por dia, às vezes, não tinham nem descanso durante aos sábados ou domingos. As pessoas padeciam de fome, cansaço extremo e humilhações.

É nesse contexto que se passa “Contos de Kolimá”, onde Varlam Chalámov foi um prisioneiro político no gulag de Kolimá.

O autor foi detido pela primeira vez em 1929 por ser um “elemento socialmente perigoso”, e  sua última sentença foi encerrada em 1951.

O narrador nos conta a história por meio de vários contos que estão ligados entre si pela temática, a escrita é austera, seca e calma. Os contos são objetivos e depurados sem excessos de sentimentalismos.

Um exemplo de como é a narrativa se constitui:

“Sachka estendeu os braços do assassinado, arrancou-lhe a camiseta e tirou-lhe o suéter pela cabeça. Era vermelho, nele mal se notava o sangue. Siévotchka, com cuidado para não sujar os dedos, colocou o suéter na mala de papelão. O jogo tinha terminado, e eu podia ir para a casa. Agora teria de procurar um novo parceiro para cortar lenha.”

Os atos de humanidade descritos são raros, porém existem. Em um momento o autor estava muito doente e não iria conseguir cumprir a cota na colheita de uns frutos, podendo gerar pena de morte, um companheiro seu coloca uma pedra no saco para dar o peso, pois sabia que ninguém iria abri-lo, somente pesá-lo.

O conto “O leite condensado” é simplesmente terrível, nele vemos que além dos criminosos e dos chefes, tinham agentes da NKVD (futura KGB) infiltrados no meio dos prisioneiros.

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Trabalhadores de um gulag.

A desumanização é atroz, no conto “A cadela Tamara” conhecemos a história de vários presos que fazem fila para passar a mão na cachorrinha para resgatar-lhes a alma “perdida”. Em outro conto como “Vaska Denissov, O Raptor de Porcos” e “Dia de folga” entendemos como as pessoas agiam num contexto tão extremo.

São descritas as roupas gastas, que não serviam para o inverno, a fome extrema, a falta de liberdade e o trabalho desgastante nas minas de ouro.

Outro ponto bastante importante no livro são as descrições do trabalho sob o frio extremo, na qual um cuspe congela no ar e ventos tão fortes que a pessoa não consegue abrir os olhos. Imaginemos trabalhar ao ar livre no inverno siberiano.

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As condições de trabalho nos gulags eram horríveis.

O Estado stalinista é o grande opositor do narrador, Chalamóv pretendeu demonstrar a vida em que o Estado é o seu grande inimigo. Ele não existia para proteger o indivíduo, mas para condená-lo.

Todos os contos são extremamente impactantes, mas para mim “Leite Condensado” e “Dia de Folga” resumem o que eram os gulags.

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Varlam Chalámov (1907 – 1982) foi poeta e jornalista, preso em 1929, retornou para o gulag de Kolimá por acusação de atividades contrarrevolucionárias, foi libertado em 1951. Faz parte da mesma coletânea sobre os gulags: “A Margem Esquerda” e “O Artista e a Pá”.

A partir daqui deixo com vocês!!!

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