Resenha livro: Expedição ao Inverno- Aharon Appelfed

Como era o mundo dos judeus antes do Holocausto? Eles tinham ideia de que corriam riscos?

 Aharon Appenfeld retrata de forma ficcional o universo judaico da região da Bucovina, antiga província do Império Austro-Húngaro, incorporado à Romênia após a Primeira Guerra Mundial, esse também era o local de nascimento do autor.

Região da Bucovina

Os Habsburgos que conquistaram essa região se esforçaram para fazer da cidade de Czernowitz (região da Bucovina) um polo da cultura germânica.

Os judeus libertos dos guetos no século XVIII se viram expostos à cultura, ao desenvolvimento da ciência e a racionalidade do século XIX.

No início do século XX a comunidade judaica estava dividida, parte dela tentando se assimilar, buscando um lugar ao sol na cultura burguesa, outra parte apegada às tradições ancestrais.

Bucovina
Região da Bucovina atualmente.

Para o crítico literário, Luis Krausz foi essa divisão entre os judeus um dos fatores deles não terem se dado conta do perigo que corriam.

Na região, a presença da cultura alemã era vista como redentora, pois a localidade era compreendida como bárbara, apelidada de “terra dos ursos”.

Parte dos judeus da região se assimilaram, falavam alemão e não o iídiche, adotaram nomes e sobrenomes alemães, posteriormente esses judeus se viram oprimidos pelo nacionalismo romeno.

Em contrapartida, a outra parte, ainda conservavam o iídiche, casavam-se somente entre si e viviam a vida social na comunidade.

O protagonista é um menino judeu, chamado Kurti, uma criança que a princípio não se comunica com a fala, mas depois de desenvolver a linguagem oral se torna gaga.

 O garoto é órfão de mãe, o pai é um mascate, que detesta religião, já sua madrasta vem de uma família de judeus comunistas.

Quando ela acende as velas para o Shabbat o marido pergunta, “isso por acaso é alguma magia?”

Mais tarde por alguns motivos, o menino vai trabalhar em um hotel, em que o dono Rudolf é um judeu, que critica outros da sua religião que não servem o exército e não pratica exercícios físicos.

Esse hotel vivia bem lotado no verão e na primavera, pois além dos turistas comuns, o local recebia muitos judeus atrás do “Rabino Milagroso”.

Corria a notícia na região que em Bucovina havia um rabino que curava qualquer doença.

“O homem milagroso pede a eles, primeiro, que aprendam as letras e, em alguns dias, preces breves.”

O interessante é que a grande maioria dos judeus buscavam a cura a bile negra, uma depressão que acometia parte da comunidade judaica.

A sinagoga da cidade estava fechada e toda empoeirada, com livros que ninguém conseguia entender, porque ninguém mais falava hebraico.

Tanto a depressão, como a sinagoga fechada e a gagueira de Kuti são representações de um mundo em decomposição, em que os judeus se encontraram paralisados entre a ideia de progresso e uma religião mística, cultuada por ancestrais, tudo isso em uma Europa dilacerada pela Primeira Guerra Mundial.

Um personagem secundário bem importante, é um hóspede chamado Sr. Laufer. Todos os dias ele se levantava e ia as praças e as ruas advertir a todos, pois acreditava que Hitler era uma ameaça.

“Suas palavras soam distantes e remotas, como se não tivessem nenhuma ligação com esse lugar. No café e no clube de xadrez discutem com ele e lhe dizem que nem mesmo Napoleão conseguiu chegar a essa montanha.”

Nesse trecho, o autor deixa entendido que os judeus não se davam conta do perigo que corriam, tratavam Hitler como só mais um político, mesmo com todos os seus discursos que nunca esconderam sua pretensão em relação aos judeus.

Em relação ao enredo deixarei a partir daqui com vocês.

aharon appelfeldAharon Appelfeld vinha de uma família judia que era assimilada, isso significa que falava alemão, estudava de forma secular, também acreditava no progresso.

O autor perdeu toda a sua família no Holocausto, durante a guerra conseguiu fugir de um campo de concentração na Transnístria.

Sobreviveu a guerra se escondendo na floresta, vivendo com marginais e prostitutas, nesse contexto não falava, pois se comunicava somente em alemão, assim poderiam desconfiar que ele era judeu e entregá-lo aos nazistas.

Ao fim da guerra como órfão foi conduzido até a Itália de lá foi levado para Israel, onde viveu até falecer.

Interessante que o autor perdeu a língua alemã, os fragmentos do romeno e do ucraniano.

Segundo Luis Krausz, o sistema educacional dos pioneiros sionistas, ao qual Appelfeld foi incorporado, tinha como objetivo levar os refugiados a esquecerem o passado e fazer deles guerreiros e agricultores de língua hebraica.

Aharon deu uma entrevista, em que disse: “Cada livro meu é uma construção, construo minha vida, construo minha infância, construo minha casa, meu ambiente.”

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